PARTIMÓNIO - Penacova abre as portas aos seus moinhos


O município de Penacova associa-se, hoje e amanhã, ao dia Nacional dos Moinhos, iniciativa organizada pela Rede Portuguesa de Moinhos, com o apoio da Sociedade Internacional de Molinologia e que pretende chamar a atenção dos portugueses para o inestimável valor patrimonial dos moinhos tradicionais, de forma a motivar e coordenar vontades e esforços de proprietários, moleiros, organizações associativas, autarquias locais, museus, investigadores, molinólogos, entusiastas, amigos dos moinhos e população em geral.

Assim, hoje, dia dedicado à acção “Moinhos Abertos”, o Núcleo Molinológico da Portela de Oliveira fará visitas guiadas e com entrada gratuita ao museu e ao moinho do Moinho Vitorino Nemésio, o mesmo sucedendo com o Núcleo Molinológico de Gavinhos, onde o moinho de Lino Branco abrirá as suas portas.

No domingo, a “dose” repete-se mas para comemorar o dia Nacional dos Moinhos.

De acordo com a organização, este dia, «além de chamar a atenção para os moinhos tradicionais, poderá servir também para identificar problemas e oportunidades, germinar projectos ou mesmo para levar a cabo pequenas beneficiações nos referidos moinhos.

O Moinho do Sr. Lino Branco

O Moinho do Sr. Lino Branco em Gavinhos
"No distrito de Coimbra existem muitos moinhos de vento, principalmente no concelho de Penacova, onde se podem encontrar importantes núcleos molinológicos em Gavinhos, Portela de Oliveira e Serra da Atalhada.

Não foi fácil encontrar o moinho a funcionar, sendo necessário deslocar-me três vezes ao local, não tendo na primeira visita obtido qualquer sucesso, pelo que voltei lá uma segunda vez, encontrando nessa altura o moleiro a fazer a manutenção do seu moinho, mais precisamente a picar as mós, pelo que decidi voltar lá mais tarde. À terceira foi de vez e pude, finalmente, ao som do vento a bater nas velas e do ruído da mó a girar, apreciar detalhadamente todo o funcionamento do moinho, ouvindo as explicações do moleiro, o senhor Lino, uma pessoa simpática que gosta de partilhar os seus conhecimentos e os transmite com gosto aos visitantes.

Quando o inquiri sobre o passado do lugar, quando todos aqueles moinhos funcionavam, notei alguma nostalgia nas suas palavras: Nessa altura é que era bom, fazíamos companhia uns aos outros e havia trabalho para todos. Só aqui eram catorze, vinte e seis em Portela de Oliveira e muitos outros espalhados por aí. Hoje sou só eu que faço este trabalho”.

Essa intensa actividade dos moinhos, conheceu-a em miúdo, tendo entretanto trabalhado na área construção civil e sido emigrante, tendo voltado ao seu moinho por gosto a esta arte.

Oito dos catorze moinhos de Gavinhos, dando para ver a natureza rochosa do terreno
Despedi-me do senhor Lino. Cá fora uma brisa ligeira fazia rodar suavemente as velas do moinho; uma imagem de rara beleza, enquadrada pela magnífica paisagem e pelo céu azul de um entardecer calmo e quente de Julho. Naquele momento já não se encontrava ninguém no monte e o grande número de pessoas que ali tinham chegado durante a tarde, em dois autocarros, já tinha abandonado o local.

Sentei-me numa pedra e fiquei durante alguns minutos a observar o moinho e a paisagem, sentindo o agradável sopro da brisa fresca, que atenuava os efeitos do sol, cujos raios, naquele momento, tinham já os reflexos com a tonalidade própria do entardecer…

Foi então, naquele momento, que o ambiente no local se transfigurou completamente: Os moinhos estavam todos com as suas velas desfraldadas e a rodar movidos pelo vento que, subitamente, parecia ter passado a soprar com mais força! Estavam a chegar ao monte carroças carregadas com sacos de milho e trigo que eram descarregadas por camponeses de braços fortes e tez escurecida pelo sol, protegidos por enormes chapéus de palha. Partiam burros com sacos de farinha pendurados nas albardas. Os moleiros, com a sua roupa branca e os braços nus e enfarinhados, conversavam com os camponeses que iam chegando e partindo, trazendo e levando notícias…

De repente estremeci e regressei à realidade. O moinho do senhor Lino, que continuava a trabalhar, era o único testemunho vivo daquele passado que, por momentos, foi real na minha imaginação. Abandonei o local, feliz por aqueles bons momentos ali passados."


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