OPINIÃO - A laranja está podre? - PENACOVA ACTUAL

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4 de julho de 2013

OPINIÃO - A laranja está podre?

Passaram 3 dias sobre a demissão de Vítor Gaspar. Muito ouvi falar sobre a sua carta de demissão. Os comentadores políticos e os “fazedores de opinião” fizeram sobre este texto, que classifico como um singelo acto de contrição do ex-ministro, as mais variadas sinopses. Todos os que ouvi alinhavam por um mesmo argumento estruturante: a carta de Gaspar é uma crítica acesa ao governo! Depois de ler fiquei a pensar que alguém precisa de ter aulas de Português no sentido de melhorar as suas competências no campo da interpretação. Posso ser eu, é um facto, mas a minha imodéstia obriga-me a pensar que serão os comentadores e fazedores de opinião. Estes, à falta de substrato, não têm um pingo de vergonha de inventar e, parafraseando uma pessoa das minhas relações, “ de uma vírgula fazem um orçamento de estado!”. O texto do Gaspar é o texto de um homem derrotado, que, incapaz de continuar a apostar numa estratégia que ele há muito sabe descabida e incapaz de dar os frutos para os quais foi (ou deveria ter sido!) concebida joga a toalha ao chão, como faria qualquer derrotado num qualquer jogo. Usa o argumento do “chumbo do tribunal” a algumas das alíneas do orçamento, não lhe passa pela cabeça, e isso é que eu não entendo, que o tribunal não falhou, quem falhou foi o governo ao fazer dois orçamentos que violam repetidamente a constituição. Nesta matéria o erro do Tribunal foi abrir o regime de excepção aquando da primeira vez. Este governo deveria ter vergonha de ser incapaz e incompetente no cumprimento da constituição, que todos juraram defender. Voltando ao texto do Gaspar, tenho dificuldade em vislumbrar a tão apregoada crítica ao governo, excepção feita ao advérbio de modo (não sei se ainda se chama assim…) “atempadamente” escrito em itálico e que de facto encerra em si alguma dor, tudo o resto é simples e claro: a receita falhou, não se vai conseguir tirar o pais do buraco recorrendo a estes fármacos, a única coisa conseguida foi mais tempo de agonia para os portugueses com o prolongar do tempo de resgate. Os comentadores contrapõem o valor incalculável da correcção da despesa do estado (que raio de falácia é esta???) e da correcção da conta externa (outra???) efectuadas por Vítor Gaspar, mas na vida das pessoas que significa isto? Que ganhou Portugal ou o Povo português? Mais dificuldades, mais sofrimento, mais desemprego, menos acesso à saúde, maior custo de vida… raio, não será chegada a hora de os políticos encararem o país como algo mais do que um território (por eles posto) a saque pela finança?
Também se pode inferir da carta que, quando iniciou funções o país estava mergulhado numa profunda crise orçamental e neste momento tem mais umas quantas em mãos a somar à primeira, a financeira, a económica e, a mais terrível de todas, a social. Entristece-me ver que este homem nem sequer assume a sua responsabilidade no actual estado de crise social, esta mais da sua responsabilidade que de qualquer outro, embora em parte derive da crise orçamental, e nesta só lhe poderá ser imputada a responsabilidade decorrente da sua acção governativa e não a anterior.
Por fim vou regressar ao início, os comentadores políticos que analisaram até ao inexistente a carta de Gaspar fazem-no em nome de que deus? Até parece que estão ansiosos por eleições antecipadas, que trabalham a favor de um qualquer partido, sob orientações directas ou indirectas. Os portugueses confrontam-se com uma situação trágica, os dois partidos que sempre foram governo, e que por isso são os únicos CULPADOS dos actuais estados de crise, atravessam sérias crises de liderança, ou melhor estão em plena guerra civil, logo ambos ganham com um cenário de eleições antecipadas, podendo reformular as suas lideranças tendo por base os resultados eleitorais. Mas teremos nós de suportar essas loucuras e megalomanias partidárias? Portugal merece outra coisa que não a patetice de Seguro que nunca consegui articular uma única ideia (credível) para o país, mas precisa de se livrar da tolice de Passos Coelho, homem que se tornou primeiro-ministro por acidente legislativo, que o seu partido bem lhe conhece o percurso. Claro que não podemos esquecer Portas, o homem que conhece todas as estratégias para se manter aberto ( ou Porta aberta…) a qualquer eventualidade. Que fazer? Que cenários se nos apresentam? Cada vez mais me considero cidadã de um país entregue aos bichos, e não me refiro aos do Torga…
Deixo para reflexão um artigo da Constituição da Republica Portuguesa
Artigo 117.º
Estatuto dos titulares de cargos políticos
1. Os titulares de cargos políticos respondem política, civil e criminalmente pelas acções e omissões que pratiquem no exercício das suas funções.
2. A lei dispõe sobre os deveres, responsabilidades e incompatibilidades dos titulares de cargos políticos, as consequências do respectivo incumprimento, bem como sobre os respectivos direitos, regalias e imunidades.
3. A lei determina os crimes de responsabilidade dos titulares de cargos políticos, bem como as sanções aplicáveis e os respectivos efeitos, que podem incluir a destituição do cargo ou a perda do mandato.

Anabela Bragança