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8 de julho de 2013

Uma demissão nunca vem só *

Em boa verdade, a demissão de Vítor Gaspar não causa surpresa. Tal como até não causa surpresa a demissão de Paulo Portas. Da mesma forma que não causa surpresa o discurso atabalhoado e lamentável de Passos Coelho quando ensaiou uma triste explicação ao País, indigna de um primeiro-ministro de Portugal. Nada disto nos provoca surpresa por uma razão simples: com este Governo, temos a certeza que o pior é sempre possível.
A austeridade atinge os portugueses? O Governo encarrega-se de a agudizar. O desemprego desassossega as famílias? O Governo incumbe-se de extinguir postos de trabalho. As pessoas queixam-se dos impostos? O Governo mandata o fisco para levar o resto. Os cidadãos estão desprotegidos? O Governo celebra com a Troika a amputação do Estado Social.
Diante disto, o triste teatro das demissões e dos desamores de Passos com Portas, é apenas mais um acto funesto no nosso degradado ambiente político. PSD e CDS cavaram esta crise. São os únicos responsáveis por ela e pelas suas consequências.
Parecendo viver um pesadelo, os portugueses nem acreditam que o Governo moribundo continue de pé, fingindo existir, à revelia do povo. O PSD e o CDS mantêm um casamento de conveniência quando a crise conjugal já atingiu um nível insustentável. A solução hipócrita (consentida pelo Presidente da República) em manter as aparências, fingindo que afinal tudo está bem, que os cidadãos vivem satisfeitos e que o País segue uma linha próspera de crescimento e de emprego, entorpece a democracia e mina a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas.
A verdade é que PSD e CDS não confiam um no outro, mesmo que agora finjam ou ensaiem um novo entendimento. E os portugueses já não confiam em nenhum deles! Mas o mais estranho é que nenhum consiga perceber que o País já não tem paciência para eles. O País agradece que emigrem, como mandou o líder do PSD fazer aos nossos jovens e desempregados! Esta é uma coligação em aflição que teima em segurar-se ao poder, sem rumo, sem ar e em agonia.
Portas demitiu-se por não gostar do nome da ministra das Finanças. Amuou e deitou o Governo abaixo. PSD e CDS ignoram que não é apenas dos rostos que as pessoas mais se fartaram, mas sim de uma política que nos empobrece e que favorece os mais fortes e enfraquece a grande maioria dos portugueses.
Cavaco demora a ouvir a voz os Partidos. Espera tempo demais. Sabe que terá à sua frente uma voz poderosa. Uma voz que representa a grande maioria dos cidadãos.
Cavaco, com esta demora, quer manter o Governo mais tempo ligado à máquina, fingindo, ele próprio, que acredita num novo acordo entre CDS e PSD que sabe que não é possível, nem credível nem duradouro.  
O Presidente sabe que o País se está a afundar. Sabe que o dilúvio está instalado. Permitiu a fuga para a frente, quando pela frente está o povo, debruçado sobre a desgraça em que o Governo o deixou. Chamar os cidadãos a pronunciar-se nas urnas seria o mais sensato! Quem tem medo da voz do povo? De costas voltadas para o dilúvio, vejo o PSD e o CDS. Vejo ambos a brincar à chuva. Uma mão amiga e presidencial protege-os da chuva com um chapéu roto, que a indignação do povo se encarregará de rasgar. 

*artigo de opinião originalmente publicado na edição impressa do Diário de Coimbra de 08.07.2013

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