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9 de setembro de 2013

OPINIÃO – Incêndios florestais: centrar o debate *

Mais um verão, igual a tantos outros dos últimos 30 anos, e novamente os incêndios florestais na ordem do dia. Terra queimada, populações aflitas e os Bombeiros no centro das atenções.
Este ano é problema da formação ou da falta dela. Hoje alguém me perguntava se os incêndios florestais resultavam da falta de formação dos Bombeiros ou de formação inadequada às circunstâncias.
Respondi exatamente aquilo que podia responder com base na realidade que conheço. Os Bombeiros portugueses têm formação adequada e suficiente para o combate aos incêndios florestais. Aliás, se há alguém que tem adaptado a sua vontade e os seus conhecimentos ao estado degradante de boa parte da nossa floresta, são exatamente os Bombeiros com formação certificada ministrada nos últimos anos.
É certo que os Bombeiros têm um sistema organizacional específico, assente essencialmente no voluntariado, mas fazem um esforço muito grande para estar à altura dos desafios que lhes são pedidos, na salvaguarda das pessoas e dos seus bens principais. A prova está na resolução, atempada e sem consequências, assim tão graves, das centenas de ocorrências diárias.
Claro que também têm constrangimentos e dificuldades, como qualquer outra organização social ou grupo profissional, mas o problema da floresta portuguesa não está nos Bombeiros, na sua formação ou na falta dela. Querer centrar o debate nesta problemática é no mínimo censurável e injusto, não apenas para os Bombeiros mas, sobretudo, para a generalidade da população que continua a ver nestas Mulheres e Homens a sua única tábua de salvação.
No momento, de consternação, de dor e de luto, em que precisamos, como nunca, de sossegar as nossas populações e incentivar os Nossos Bombeiros que travam esta luta desigual, não podemos aceitar que, a pretexto seja do que for, se esteja a centrar o debate mais uma vez do lado errado.
Numa altura em que o fogo se propaga a uma velocidade extonteante, concentremo-nos, por agora, naquilo que é essencial, deixando uma palavra de profundo apreço às pessoas afetadas e a todos quantos se entregam de alma e coração na defesa imediata do património florestal, das vidas e dos bens da população.
Isto, porque apesar de ser extraordinariamente importante para a nossa economia, a floresta está cada vez mais abandonada e cada vez mais se confunde com as pequenas zonas urbanas das nossas aldeias.
O debate tem, por isso, que ser recentrado do lado do ordenamento, da prevenção, do investimento contra a desertificação. Há quantos anos se fala nisto.? Quantos estudos e projetos já foram realizados.? Quantos cadernos bonitos estão nas gavetas e quantos seminários e reuniões com mesas e lindos arranjos florais ja se fizeram.? Quanto dinheiro o país já investiu nesta área da investigação e da ciência ao serviço da floresta.? E qual o resultado? Que floresta temos?
É sobre tudo isto que precisamos refletir.
Como Bombeiro e professor, não posso estar mais de acordo com uma aposta continuada na formação, na investigação, no conhecimento científico colocado ao serviço dos operacionais dos diversos pilares da defesa da floresta. Mas isso só não chega.
O conhecimento já produzido nos gabinetes precisa ser transferido para o terreno. A rede viária florestal, as faixas de proteção dos aglomerados urbanos, o ordenamento e a diversidade de espécies florestais, a limpeza das bermas, as faixas de gestão de combustível. Não, nada disto se faz no conforto do gabinete. Trabalho real, objetivo e concreto na floresta é o que precisamos.
Este é o novo paradigma que precisamos abraçar, sem calculismos, sem interesses, sem acusações.
*artigo de opinião originalmente publicado na edição do jornal "Diário as Beiras" de 04.09.2013

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