IRMÃ LUCINDA - “A grandeza de servir o Pobre”

Há tempos, ao ler o “Correio de Coimbra”, minha atenção a notícia do falecimento da Irmã Lucinda, das Criaditas dos Pobres. Não só pelo facto de ser natural de S. Pedro de Alva, do vizinho concelho de Penacova, mas sobretudo pelo título, acima, e pelo exemplo de vida de uma Mulher que dedicou “toda a sua vida ao serviço dos mais desfavorecidos. E são muitos”.

A Irmã Lucinda Figueiredo de Almeida foi uma “criadita dos Pobres”, no servir “o pobre, na pessoa dos pobres, sendo pobre”. Foi superiora da Congregação durante mais de duas dezenas de anos. Foi um grande “rosto da fé” ao “serviço aos mais desprotegidos da cidade de Coimbra”. E nesta sua “grandeza de servir o Pobre”, na “Cozinha Económica onde ela trabalhou e que serve cerca de duas centenas de refeições por dia”, numa disponibilidade que, às vezes, se torna tão difícil compreender pela maioria das pessoas, acabou por ser um raio de sol e de esperança para aqueles que não têm ou já perderam esperança.

“São ainda exemplos como os da Irmã Lucinda que nos deviam fazer pensar”

E enquanto uma minoria engorda, tantos são aqueles que têm fome. Fome de uma refeição, fome de uma palavra, um ombro amigo, que tornem menos penosos os dias e a miséria, tanta miséria, de pessoas e famílias a viver no limiar da pobreza “neste mundo, numa sociedade tão conturbada, a todos os níveis, onde vivemos” em que “são ainda exemplos como os da Irmã Lucinda que nos deviam fazer pensar”. De facto, porque se os tempos que se vivem são dramáticos para tantos, muitos mais dramáticos seriam se não houvessem almas sublimes “com autoridade de quem sabe e ama Deus e vive para amar todos aqueles que são de Deus”.

Era assim a Irmã Lucinda, pobre e simples, que deixou “uma grande lição na importância daqueles que servem e naqueles que são servidos. A atitude de quem recebe ajuda e de quem sirva com humildade e bondade”, como está escrito, ainda, no “Correio”. “Esta Irmã, como tantas outras, são verdadeiras Teresas de Calcutá que no silêncio da noite calcorreiam as calçadas da nossa cidade levando um pouco de esperança a quem não a tem…”. E já doente e “apesar da sua doença, não deixou de se preocupar com os Pobres, seus vizinhos, indo ao encontro, sobretudos daqueles que estão sós e que por vezes não têm quem lhes dê um prato de sopa”.

A Irmã Lucinda deixou-nos, repentinamente, para sempre em 14 de Fevereiro passado. Completara 83 anos poucos dias antes do seu falecimento. Entrou na Congregação das Criaditas dos Pobres ainda muito jovem (com apenas 16 anos), dedicando toda a sua vida ao serviço dos mais desprotegidos. Foi superiora geral das Criaditas durante 18 anos e passou, antes e depois, pelas diversas casas que a Congregação tinha então abertas em Coimbra, Aveiro, Portalegre e Açores.

“Nós somos Criaditas dos Pobres; estamos para os servir, não para os criticar”

De uma alegria contagiante, gostava muito de entoar salmos e cânticos”. E no seu último adeus, o Bispo Emérito de Portalegre e Castelo Branco, D. Augusto César, na sua homilia, salientou o trabalho humilde e dedicado aos mais pobres, recordando, entre outros, que a Irmã Lucinda, numa assembleia em que participaram várias entidades, alguém criticou algumas atitudes dos pobres, tendo a Irmã interrompido dizendo que ninguém devia dizer mal daqueles para quem trabalha. “Nós somos Criaditas dos Pobres; estamos para os servir, não para os criticar”.

E tantas críticas, também consubstanciadas, sobretudo, na pobreza envergonhada, são feitas e cometidas aos pobres que, como diz Cristo, no Evangelho, “sempre os tereis entre vós”, mas esta realidade não pode (não devia) ser motivo para que a pobreza e a miséria sejam cada vez maiores num mundo onde a igualdade e a solidariedade são palavras que começam a soar a ocas, vãs e sem sentido, mas onde vão restando, felizmente, exemplos como a Irmã Lucinda e outras Criaditas, que fazem da sua vida um autêntico hino de amor.

EIS, como tão bem gostava de dizer (e escrever) o padre Américo, que também deixou o seu nome ligado a S. Pedro de Alva e que, como a Irmã Lucinda, espalharam a semente que caiu em boa terra, há-de morrer e germinar, crescer e dar frutos para ajudar a que os pobres sejam menos pobres, como aliás devia acontecer, porque só assim, o Mundo seria mais equilibrado, mais justo, mais solidário e mais fraterno. Disso não temos dúvidas.

Texto de J. M. CASTANHEIRA originalmente publicado em A Comarca de Arganil de 20.03.2014 - não disponível online

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