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21 de março de 2014

OPINIÃO - Dia Mundial da Floresta

Com um conjunto de iniciativas, um pouco por toda a parte, celebra-se hoje o dia Mundial da Floresta com o objetivo de recordar a importância vital que a árvore tem para a preservação do ecossistema, tal como o conhecemos, e na sua função decisiva para a manutenção da vida de cada um de nós.

Apesar disso, a floresta continua a ser desbaratada, esquecida, abandonada, mal tratada e só nos lembramos verdadeiramente dela, exatamente neste dia e no Verão quando a vemos desaparecer sob o efeito terrível dos incêndios florestais.

Durante todo o ano, quando devíamos cuidar dela, limpá-la e preservá-la andamos distraídos, porventura com outras coisas também importantes, mais mediáticas e valorizadas no curto prazo. Depressa chegam o Verão e o calor, e, novamente, os incêndios florestais voltam a lembrar-nos que afinal existe floresta. Nesta altura, os culpados do costume, os Bombeiros, a falta de equipamento, a escassez de meios aéreos, a falta de formação e de profissionlismo. Vamos todos a correr, fazer inquéritos, relatórios, livros brancos. Apresentam-se com pompa e circunstância e alguma polémica à mistura para dar um pouco de picante. Muda-se a legislação, aumentam-se as coimas. Tudo parece voltar a ficar resolvido.

Após os grandes incêndios de 2003 e 2005 os Bombeiros Portugueses foram acusados de impreparação e incapacidade para fazer face às grandes dificuldades. O poder político, à época, não acreditando na capacidade dos Bombeiros, ou apenas para mostrar serviço, criou outra estrutura de combate no seio das forças de segurança, instituiu o Comando da Proteção Civil e julgou que com isso resolvia o problema. Nada mais errado.

Os anos seguintes foram de alguma acalmia, devido essencialmente às condições meteorológicas, mas quando estas voltaram a ter um grau idêntico de severidade, como em 2010 e 2013, os incêndios voltaram a ter exatamente a mesma expressão.

Isto prova que a dimensão do problema não está no combate, prova que não é a falta de preparação dos Bombeiros Portugueses, prova que também já não é a falta generalizada de equipamento. Antes pelo contrário, não temos dúvidas em afirmar, que face ao envelhecimento da população, o abandono progressivo do interior e à desertificação das nossas aldeias, tudo seria bem pior se não fosse a enorme capacidade dos Bombeiros Portugueses e a confiança que a generalidade da população neles deposita.

O problema é por isso muito mais abrangente e necessita ser continuamente aprofundado.

Nos últimos anos, a floresta e tudo o que a rodeia tem sido alvo de inúmeros estudos e trabalhos científicos. Não podemos estar mais de acordo com esta estratégia de uma aposta continuada na formação, na investigação, no conhecimento científico colocado ao serviço dos agentes dos diversos pilares a defesa da floresta. Mas isso só não chega.

O conhecimento já produzido nos gabinetes precisa ser transferido para o terreno. A rede viária florestal, as faixas de proteção, o ordenamento e a diversidade de espécies florestais, a limpeza das bermas, as faixas de gestão de combustível. Não, nada disto se faz no conforto do gabinete. Trabalho real, objetivo e concreto na floresta é o que precisamos. Precisamos continuar a prevenir mais do que a remediar.

Precisamosinverter o modelo e investir mais na prevenção do que no combate.

Precisamos colocar a floresta permanentemente no topo das agendas política, económica, mediática e social e não apenas no dia que lhe é dedicado.

Este é o novo paradigma que precisamos abraçar, sem calculismos, sem interesses, sem acusações.

Oxalá que este dia sirva de reflexão. 

António Simões, Presidente da Federação dos Bombeiros do Distrito de Coimbra - texto originalmente publicado na edição impressa do AS Beiras de 21.03.2014

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