MOSTEIRO DO LORVÃO - Órgão volta a tocar com o mesmo som de há 200 anos

Os quatro mil tubos vão voltar a dar música no Mosteiro de Lorvão. Amanhã assiste-se ao concerto inaugural do maior órgão histórico de Portugal do século XVII


O som não deixa dúvidas quanto à grandiosidade, ainda que sejam testes apenas e algumas notas para mostrar que o Órgão de Tubos do Mosteiro de Lorvão está operacional. Dinarte Machado, o mestre organeiro responsável pelo trabalho de restauro, mostra, com  satisfação, o resultado alcançado. O som que sai de cada um dos quatro mil tubos é, em muito, semelhante ao que se ouvia no século
XVIII, aquando da sua construção. «Muito próximo do original», garante o organeiro.

Nesta visita que antecede o concerto inaugural, marcado para amanhã, Dinarte Machado mostra o trabalho desenvolvido nos últimos dois anos, quando decidiu abraçar o projecto de recuperação, que começou muitos anos antes, há perto de duas décadas, pela mão de um outro organeiro, de Condeixa-a-Nova, que, a meio do processo, teve um diferendo com o IPPAR, o que fez parar a recuperação do órgão de tubos durante vários anos.

Não foi tarefa fácil aquela que Dinarte Machado teve pela frente. «É quase um milhão de peças na totalidade », refere o mestre organeiro, lembrando ainda que muitas delas estavam encaixotadas
no próprio Mosteiro de Lorvão, outras ainda estavam bem longe do seu local de origem. «Reunir isto tudo requer conhecimento do construtor aliado a informação que se vem acumulando», conta.

Obra de singularidades

No Órgão do Mosteiro de Lorvão há tubos de todos os tamanhos: grandes médios, pequenos, muito pequenos... Afinal, são quatro mil, metade dos quais ainda os originais, outro tantos construções que foi necessário fazer para concluir o puzzle. «É o maior órgão histórico construído em Portugal no século XVIII», conta o organeiro, enquanto testa algumas teclas e mostra a obra projectada pelo organeiro e escultor Manuel Teixeira de Miranda, pai do escultor Machado de Castro (que na obra é responsável pelo trabalho escultórico que ornamenta a caixa do órgão) e de António Machado e Cerveira, que mais tarde, 14 anos após a morte do pai, decide terminar o trabalho. Prosseguindo com uma pequena lição histórica, Dinarte Machado lembra que os órgãos deste tipo «percorrem várias épocas e práticas musicais» e o de Lorvão, datado de 1795, não foi excepção, pelo que foi sofrendo adaptações, nomeadamente com a retirada de filas de tubos. E na verdade, considera, são «intervenções que existem para justificar a sua existência e continuação». A última aconteceu em 1954, a mando da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, e o órgão passou a tocar por mais uma década para se “calar” em definitivo.

As particularidades desta obra que não serve apenas para dar música – é também um objecto de arte – estendem-se à sua configuração e à própria disposição no espaço da igreja do Mosteiro de Lorvão. «O órgão tem duas fachadas, uma virada para o público e outra para o coro. É uma situação única em Portugal e muito rara no mundo inteiro», explica o mestre, destacando também a colocação física, «mais ou menos no meio da igreja». «Está assim porque era uma igreja conventual, que umas vezes abria ao público, outras vezes não».

O som sai equivalentemente para os dois lados, mas, porque já não há freiras em Lorvão, será a comunidade em geral a principal destinatária das obras que a partir de amanhã venham a ser executadas no órgão de tubos. Dinarte Machado está convicto de que o órgão vai passar a ser tocado todas as semanas. «Além de
ter um dos melhores instrumentos do país, Lorvão passa por uma fase coincidentemente importante: tem o padre Pedro Miranda, que é organista», justifica. Para já, os primeiros sons oficiais sairão das mãos dos organistas João Vaz, a referência actual em Portugal, e Harald Vogel, organista de renome do norte da Alemanha, num concerto inaugural marcado para amanhã, às 21h00.



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