OPINIÃO - O Voluntariado, os Bombeiros e a Juventude - PENACOVA ACTUAL
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28 de junho de 2014

OPINIÃO - O Voluntariado, os Bombeiros e a Juventude

As Associações de Bombeiros são na sua essência, agrupamentos de civis que de forma organizada promovem a salvaguarda dos bens e haveres dos cidadãos, apesar de terem sido inicialmente constituídos à mais de 600 anos com a função de combate a incêndios, as funções dos bombeiros alargaram-se para quase todas as áreas da proteção civil

O objetivo principal de qualquer Associação de Bombeiros é manter um Corpo de Bombeiros - unidade operacional tecnicamente organizada, preparada e equipada para o cabal exercício de missões de auxílio e socorro.

Na sua orgânica são compostas por uma Direção que é constituída por 3 órgãos, a saber: A Assembleia Geral, O Conselho Fiscal e o Órgão Executivo, têm por função, gerir administrativamente e financeiramente as atividades decorrentes da prestação de serviços de Proteção Civil, bem como criar condições financeiras para dotar o Corpo de Bombeiros de capacidade técnica, equipamentos e formação, para que os seus elementos possam atuar com segurança e conhecimentos que permitam participar nos mais diversos cenários de emergência.

O Comando tem a seu cargo a supervisão operacional do Corpo de Bombeiros, por inerência é o elemento de ligação entre a gestão operacional e administrativa das Associações de Bombeiros.

Em Portugal existem quatro tipos de Corpos de Bombeiros: Bombeiros Profissionais (oficialmente denominados Bombeiros Sapadores), Bombeiros Voluntários, Bombeiros Militares e Bombeiros Privativos (de empresas industriais, florestais, etc.). Existem ainda corpos mistos, compostos por Voluntários e Profissionais, denominados Bombeiros Municipais.

Os Corpos de Bombeiros Sapadores e Municipais existem por regra nos municípios mais importantes, constituindo um departamento dependente da respetiva Câmara Municipal. Enquanto os Corpos de Bombeiros Sapadores são inteiramente constituídos por profissionais, os municipais englobam tanto profissionais como voluntários em tempo parcial.

Atualmente existem apenas os seguintes corpos de Bombeiros Sapadores:

Batalhão de Sapadores Bombeiros do Porto; Companhia de Bombeiros Sapadores de Gaia; Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa; Companhia de Bombeiros Sapadores de Coimbra; Companhia de Bombeiros Sapadores de Braga; Companhia de Bombeiros Sapadores de Setúbal.

Bombeiros Militares pertencem ao Exército, Marinha e a Força Aérea, dispõem de Corpos de Bombeiros para combate a incêndios e operações de socorro em algumas das suas unidades. Os Bombeiros das bases da Força Aérea Portuguesa são chamados Operadores de Sistemas de Assistência e Socorro (OPSAS). Os Bombeiros das unidades da Marinha são chamados Especialistas de Limitação de Avarias.

Na Guarda Nacional Republicana foi criada em 2006 uma unidade especializada em operações de combate denominada Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro (GIPS). O GIPS funciona como uma força de bombeiros de elite cujas equipas atuam rapidamente, transportadas por helicópteros ou veículos ligeiros, em áreas ameaçadas de catástrofe, realizando uma primeira intervenção até à chegada de reforços com equipamento mais pesado.

Ao longo da História os Bombeiros têm-se adaptado à evolução das atividades humanas, inicialmente no Séc. XIV eram conhecidos como «os pregoeiros» da cidade, D. João I ordenou que saíssem de noite pela ruas, a avisar, em voz alta, os moradores, de que deveriam tomar cuidado com o lume em suas casas.
  
Mas só no Séc. XVI, se introduziu em Lisboa, o sistema usado em Paris, tendo o Senado aprovado a aquisição de diverso material e equipamentos, foi nesta altura que foram criados os primeiros Quartéis de Bombeiros que não passavam de lojas onde eram armazenadas as ferramentas de combate a incêndios.
  
Apenas em 1681, forma adquiridas na Holanda, duas bombas e uma grande quantidade de baldes de couro, sendo distribuídos 50, por cada bairro. Os pedreiros, os carpinteiros e outros mestres passaram a ser alistados para o combate aos sinistros, ficando sujeitos a uma pena de prisão por cada incêndio, a que não comparecessem.

Em 1722, no Porto foi fundada A Companhia do Fogo ou Companhia da Bomba, era constituída por 100 “homens práticos”, capazes de manobrarem a “Bomba, machados ou fouces”. 

O termo “Bombeiro”, que está intimamente ligado às bombas, um dos equipamentos mais avançados para a época, e que as Corporações consideraram da maior utilidade, surgiu, pela primeira vez, em Lisboa, no ano de 1734. Neste mesmo ano foram adquiridas mais quatro bombas, em Inglaterra.

Aos homens dos serviços dos incêndios, por trabalharem com as Bombas, passaram a ser designados Bombeiros. Encontramos aqui a origem da denominação de bombeiro, assim como a razão de ser da origem do nome “Companhia da Bomba”.

A exceção é Lisboa que por razões desconhecidas em que a primeira Companhia de Bombeiros de Lisboa, criada, em 17 de Julho de 1834, pela Câmara Municipal, que ficou também conhecida por Companhia do Caldo e do Nabo.

A partir do ano 1868, foram introduzidas as bombas a vapor, originando a obrigatoriedade dos proprietários instalarem boca-de-incêndio nos prédios. Apareceu também a escada “Fernandes”, percursora da “Magyrus” e foi instituída a classe de Sotas - Bombeiros permanentes, cuja denominação era atribuída aos Capatazes dos antigos aguadeiros.

O movimento Associativo dos Bombeiros começou com a Companhia de Voluntários Bombeiros de Lisboa, criada, em 1868, e que depois, em 1880, passou a Associação de Bombeiros Voluntários.

Apenas há 134 anos é que nasceram as Associações de Bombeiros tal qual as conhecemos hoje, economicamente dependentes de 3 tipos de receita, Apoios em forma de subsídios do Poder Central, Poder Local (Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia) e

Receitas Próprias, através do transporte de doentes, quotização de sócios e donativos.

Como o nome indica “Bombeiros Voluntários” as atividades são prestadas por elementos voluntários mas com o aumento da quantidade, da exigência e da complexidade das intervenções, as Associações tiverem que se ajustar a estas realidades e começaram a admitir nos seus quadros um conjunto de bombeiros profissionais pagos, para fazer face a esta evolução da ação humana.

A questão que hoje nos prende é «que futuro» há quem diga que o futuro a Deus pertence, é certo que esta é uma perspetiva religiosa, mas não deixa de ser uma perspetiva passiva, deixa passar deixa fazer logo se verá …entendo que a continuidade dos Corpos dos Bombeiros prende-se mais com a sua sustentabilidade do que com a alma, espírito solidário ou até mesmo com a capacidade de renovação da massa humana voluntária necessária para a prestação do socorro.

As Associações de Bombeiros Voluntários atravessam hoje uma grave crise de sustentabilidade económica e financeira, é urgente que se reponha o equilíbrio financeiro, é urgente a reformulação do modelo de financiamento, sob pena de poder ser tarde de mais para muitas Associações, mesmo para quem vai conseguindo sobreviver, por mais imaginação que os seus diretores possam ter, torna-se impossível criar as condições ideais para acolher todos os jovens que querem dar um pouco do seu tempo nesta tão nobre causa.

Só com muito empenho e dedicação é que podemos afirmar felizmente que para o voluntario este termo «crise de sustentabilidade» encontra-se fora dos seus horizontes, acredito que a principal razão é porque voluntário e juventude conjugam-se na perfeição e será bom que assim seja por muitos e longos anos.

O crescimento pessoal implicado pelo desempenho de trabalho de voluntariado é atestado pelo reconhecimento da população em geral.

O voluntariado deve consistir de forma geral no desenvolvimento de atividades de participação cívica, por vontade própria e de uma forma organizada, para ajudar a resolver problemas de grupos sociais ou até da sociedade em geral. 

Tenho como certo que cada vez mais a abrangência do serviço dos Bombeiros irá assentar na defesa do Estado Social, no combate à pobreza e na luta pela inclusão social, devemos procurar, assim, contribuir para uma sociedade mais justa e mais solidária.

É inquestionável que o trabalho voluntário da juventude contribui de forma decisiva para gerar benefícios sociais. Muitas instituições e muitos grupos de cidadãos o têm sentido no seu quotidiano.

Para além dos Corpos de Bombeiros, encontramos voluntários ajudando doentes ou os seus acompanhantes nos hospitais, colaborando em diversos peditórios nacionais (Banco Alimentar Contra a Fome, Liga Portuguesa Contra o Cancro, etc.), participando na reconstrução de zonas atingidas por catástrofes, só para adiantar alguns exemplos de contextos onde eles intervêm. 

O desempenho de atividades de voluntariado implica a adesão a uma causa social e promove o enriquecimento pessoal, contribuindo para o desenvolvimento de muitas competências. Sentido de responsabilidade, espírito de colaboração, relacionamento interpessoal, competências de comunicação, capacidade de analisar problemas e de encontrar estratégias de resolução, capacidade de liderança são alguns dos aspetos em que podem ser esperadas melhorias. 

Aprende-se a selecionar e utilizar melhor os recursos disponíveis. Pratica-se e desenvolve-se o altruísmo e a solidariedade. Adquire-se uma maior consciência social e percebe-se que se pode ter um importante papel ativo na sociedade. A consciência de ser útil e de contribuir para a melhoria social traz felicidade pessoal e desenvolve a autoestima.

No exercício do voluntariado, conhecem-se pessoas, adquirem-se conhecimentos, encontram-se novos caminhos e novas oportunidades.

O crescimento pessoal implicado pelo desempenho de trabalho de voluntariado é atestado pelo reconhecimento da sua importância pelas entidades patronais, que cada vez mais o valorizam nos currículos dos candidatos a emprego. 

Julgo que também podemos melhorar a nossa intervenção quer no meio familiar quer no meio escolar no sentido de incentivar a juventude desde cedo a iniciar uma prática de uma atividade de voluntariado escolhida por cada um deles.

A sociedade contemporânea está a caminhar a passos largos para o abismo palavras como generosidade, afetividade, entreajuda parece-me estarem a ser substituídas por ganância, frieza, individualismo, não era este o futuro que se imaginava para os nossos jovens.

Ainda deve estar na nossa memória as palavras do Papa Francisco intrinsecamente conotadas com o espírito dos bombeiros, recordo-vos DESCULPE, POR FAVOR ,

OBRIGADO, palavras com este significado só podem ser ditas por quem tudo dá e nada espera em troca, talvez um simples gesto, sorriso ou afeto seja suficiente...

A nossa juventude foi educada para ter melhores condições de vida do que a nossa ou dos nossos pais, que tudo sonharam para os seus filhos. Se esta é a geração que mais espera da vida é talvez a que, pela primeira vez, menos preparada está para enfrentar as dificuldades.

Habituados a ter tudo sem qualquer esforço, acostumados a que os pais resolvam todos os seus problemas e satisfaçam todos os seus caprichos, à globalidade dos jovens faltam armas essenciais em períodos de dificuldade: resistência à frustração, iniciativa, autonomia, capacidade de definição e reformulação de objetivos de curto, médio e longo prazo e acima de tudo, perseverança na luta pela sua obtenção. 

Tudo isto, na minha perspetiva, não os torna culpados, como por vezes tenho, injustamente, ouvido ser sugerido. São, pelo contrário, o fruto de uma educação que, querendo poupá-los a sofrimentos, não os preparou para as dificuldades.

Considero fundamental que, neste contexto, as famílias repensem os seus princípios educativos. O valor e o uso da palavra "não" foi-se perdendo, sendo ela tão importante em educação. Não se pode satisfazer todos os caprichos da juventude, que precisam de distinguir limites e de aprender a adiar gratificações, a lidar com frustrações, a lutar pelos seus objetivos. 

Não é eliminando todos os obstáculos que se preparam para a vida. O aproveitamento de oportunidades de formação é também importante. A formação da escola é essencial, mas não chega. Vivemos num mundo global em que a capacidade de iniciativa e de resolução de problemas bem como a adaptação a novas situações são cruciais.

O alargamento de horizontes culturais, geográficos e de conhecimento ajuda à preparação para este mundo de incertezas.

Em tom de incentivo e apelo, afirmo que vale a pena, por isso, participar em projetos de voluntariado e contatar com outros jovens e outras realidades, olhar para o mundo que nos rodeia, largar as Play Station, os computadores a internet e outras «vicissitudes», acima de tudo vale a pena sentir-se útil. 

O mundo de sonho que idealizámos para os nossos jovens está a transformar-se num outro em que, com revolta, ouço muitos decisores de politica nacional e internacional confundirem Direitos Humanos com regalias, ou o desemprego, a fome e a perda de dignidade humana tratados de forma mercantilista como uma mera e simples "gestão de recursos". 

As perspetivas não se afiguram favoráveis. Mas é nossa responsabilidade, enquanto diretores associativos, encontrar formas de melhor acolher e de preparar as gerações jovens para o mundo real. 

Se, como referi, culpabilizar os jovens é injusto, desresponsabilizá-los também não é o caminho. Eles precisam de ser pró-ativos na construção do seu projeto de vida.

- Quem semeia colhe. Por isso, dessa colheita beneficiarão todos e beneficiará o país.

E pensemos acima de tudo que a iniciação no voluntariado pode ajudar a resolver uma boa parte desta problemática.

Paulo Dias - Presidente da Direção do Bombeiros Voluntários de Penacova

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