SAÚDE - Cansaço dos enfermeiros põe cuidados em risco

Os elevados “níveis de exaustão e insatisfação” dos enfermeiros estão a conduzir a “clara rutura” dos serviços de saúde, denuncia a Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros, com sede em Coimbra


Os elevados “níveis de exaustão e insatisfação” dos enfermeiros estão a conduzir a “clara rutura” dos serviços de saúde, denuncia a Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros, com sede em Coimbra.

Em comunicado ontem enviado à imprensa, “a Ordem dos Enfermeiros responsabiliza os decisores políticos pelas consequências que podem advir, para a qualidade e segurança dos cuidados de enfermagem, se continuarem a ser ignorados os sinais de exaustão dos profissionais, ou se forem encarados em a atenção que merecem, como tem acontecido até agora”.

Ainda recentemente a divulgação de um estudo realizado em quatro hospitais da zona Centro de Portugal, que envolveu mais de 300 enfermeiros e cerca de dois mil doentes (de medicina geral e de cirurgia geral), revelou que o número de horas de cuidados disponíveis para cada doente (uma média de três horas por dia) está muito aquém do que se verifica em hospitais de países como o Reino Unido ou Canadá, para serviços da mesma complexidade (mais de sete horas por dia).

Neste estudo, realizado nos últimos dois anos por uma equipa de investigadores da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC), sob coordenação de Fernando Amaral (especialista em Gestão e Economia da Saúde), constatou-se ainda que nesses hospitais existem serviços cujo rácio médio de enfermeiro por doentes é de um para doze.

Idosos são a maioria

“Se tivermos em conta que a média de idades dos  doentes internados ronda os 70 anos, o que significa que uma grande percentagem está muito dependente, podemos pensar como é que é possível prestar cuidados que tornem digna a passagem dos doentes num hospital”, questiona o professor coordenador da ESEnfC e membro na Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem (UICISA: E).

"Os idosos têm vulnerabilidades particulares e precisam de cuidados que requerem enfermeiros. E como em Portugal temos um défice de enfermeiros, os idosos não têm os cuidados de enfermagem que necessitariam e irão morrer seguramente mais cedo”, observa também Ananda Fernandes, docente da ESEnfC e diretora do Centro Colaborador da Organização Mundial de Saúde (OMS) para Enfermagem e Obstetrícia em Portugal.

Ananda Fernandes recorda ainda que o maior número de pessoas com doença crónica exige “cuidados especializados” que, por vezes, não são dados por falta de enfermeiros, quando “todos os anos licenciados deixam o país para trabalhar lá fora”.

É neste quadro que a Secção Regional da Ordem dos Enfermeiros “apela ao ministro da Saúde para que reconheça a influência destes fatores na segurança e qualidade dos cuidados a que os cidadãos têm constitucionalmente direito, não os banalizando e confundindo com fatores económicos”. | António Rosado

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