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10 de setembro de 2014

MEMÓRIAS - A Quintela de Boaventura de Sousa Santos

Jogava futebol com bolas de trapos, brincava com carros de madeira que tinham rodas de cortiça, apanhava azeitonas, regava milho com água do poço. Nas férias da escola, ajudava os avós na agricultura. A casa de família, a 30 quilómetros de Coimbra, tornou-se um segundo escritório com uma generosa vista para campos e serras. O sociólogo e professor, que também escreve poesia e rimas rap, enche o peito com aquela paisagem que sabe ser humilde.

As plantas que trepam as paredes, como uma segunda pele que não desgruda do cimento, encostam-se às janelas do escritório e avisam que a Primavera está mesmo a chegar, indiferentes ao calendário das estações instituído pelos homens. Nas traseiras da casa, há mais trepadeiras que cobrem paredes de cima a baixo, a todo o comprimento e largura, deixando apenas o espaço suficiente para as janelas respirarem. A vegetação mais fresca e verdejante ganha força e está preparada para derrubar a camada à superfície que o tempo se encarregou de secar.

Em Quintela, aldeia de São Pedro de Alva, a 30 quilómetros de Coimbra, ouvem-se conversas entre animais. Os pássaros saltitam de árvore em árvore e anunciam que o bom tempo não tarda. Os gatos saltam muros e passeiam sem pressas numa rua onde só passa um carro de cada vez. O tempo passa devagar na manhã do primeiro dia de trabalho da semana.


Na casa dos avós, casa onde o pai nasceu, Boaventura de Sousa Santos derrubou uma parede para abrir uma janela em frente à secretária do seu segundo escritório. Dali, sentado num sofá de couro castanho, vê campos, algumas casas, árvores e serras que se perdem no horizonte e tocam o céu. “As raízes estão aqui. Gosto muito deste campo que não me derruba. É uma paisagem à minha medida: humana, muito humilde.” É o refúgio de dias preenchidos, quando a mente e o corpo precisam de mais calma para pensar. Basta rodar a chave da casa de Coimbra e partir para a aldeia que tem gente que não dá descanso àqueles campos.


O sociólogo conhece bem aquele pedaço de terra. Nas férias da escola, deixava Coimbra, onde nasceu, para ajudar os avós paternos nos trabalhos do campo. A viagem, naquele tempo, ainda sem qualquer itinerário complementar no mapa, chegava a demorar mais de uma hora pela estrada sinuosa que acompanhava o Mondego. Férias significavam ar puro, mexer na terra, brincadeiras, comida com sabor a comida. A avó não era adepta de varejar as azeitonas e, por isso, era preciso tirá-las uma a uma das oliveiras.


O pequeno Boaventura ajudava no que fosse preciso: plantar batatas, regar os campos de milho com a água do poço, olhar pelos animais. E brincava com os amigos e vizinhos da aldeia — um que ainda ali vive numa das casas que vê do seu escritório e com quem se avista com regularidade, outro que trabalha à noite e é difícil encontrar e ainda outro que entretanto partiu para França. Jogavam futebol com bolas de trapos velhos, brincavam com carros feitos de madeira e que tinham rodas de cortiça, inventavam brincadeiras com as canas de milho que apanhavam nos campos. Longe da cidade agitada de Coimbra, onde vivia com o pai e a mãe. 


Filho único de uma família humilde, cedo percebeu que a vida não era um mar de rosas. O pai era chef de cozinha no restaurante Nicola, o mais conhecido na Coimbra de então, bastante frequentado pelos doutos professores da universidade. A mãe, doméstica e costureira, fazia camisolas para vender. Boaventura era um aluno brilhante. Aos 12 anos, ensinava o que os outros não aprendiam na escola. “Era uma vida apertada, comecei a dar explicações para ter algum dinheiro”, recorda.


“Era bem educado, era rebelde, difícil de domar e determinado nos estudos.” O pai chegou a pensar que o melhor seria o filho terminar o sétimo ano e ser mecânico de automóveis. A mãe queria vê-lo na faculdade, queria vê-lo doutor. E, naquele tempo, ser doutor era ser advogado. Entrou no curso de Direito em Coimbra e não passou despercebido. Era o melhor aluno. Os professores faziam questão de ir à cozinha onde o pai trabalhava com o pretexto de conhecer o cozinheiro do famoso bife à Nicola, que levava doses generosas de manteiga, para tentarem perceber quem era o pai de tão exemplar aluno que foi construindo o seu percurso escolar com notas brilhantes e bolsas da Gulbenkian — acabaria por ganhar o Prémio Gulbenkian da Ciência em 1996. “Fui o primeiro licenciado na família da parte pobre”, conta. O que, na altura, tinha muito peso e provocava uma certa estranheza a quem olhava de cima para a classe operária, aquela que sujava as mãos.


Nunca chegou a exercer advocacia. Como melhor aluno, ganhou uma bolsa e decidiu estudar o que realmente queria. Partiu para Berlim para aprender Filosofia do Direito. Pela primeira vez, aos 22 anos, sai de Portugal. A despedida na estação velha de Coimbra foi dolorosa para a família. A mãe ficou com o coração apertadíssimo, sofrendo por antecipação a ausência do único filho. Boaventura haveria de seguir de comboio até Paris e dali partir para Berlim. Passou dois anos na Alemanha, regressou a Portugal. As hierarquias sociais, as elites académicas, tornavam-se asfixiantes.


A vida corria conforme os humores dos catedráticos e a sociedade portuguesa era demasiado fechada. “Qualquer rebeldia intelectual era fortemente punida”, recorda. E essa rebeldia corria-lhe no sangue. “Procurava uma sociedade que me desse outra perspectiva.” Em 1969, partiu para os Estados Unidos para estudar Sociologia. Chegou a passar quatro meses numa favela do Rio de Janeiro, no Brasil, para o seu trabalho de doutoramento, para perceber como funcionava o direito ilegal, o direito informal, de comunidades que se organizavam sem leis, sem carimbos, sem papéis assinados com validade jurídica. Aí trabalhou de perto com a associação de moradores.
Hoje, professor catedrático jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, continua a ensinar na cidade onde nasceu e na Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos. Meio ano em Portugal, outro meio ano na América. Muitas viagens pelo meio e os regressos inevitáveis à aldeia.

O sol quer rasgar as nuvens e, ao final da manhã, há-de conseguir afastar o cinzento que ainda tolda a paisagem. No escritório de Quintela, o chão é de madeira e há lenha a arder numa salamandra que lembra que o Inverno tarda em ir embora. Há livros em prateleiras, em cima da secretária, de mesas, de cadeiras. Vários CD, quadros nas paredes, candeeiros de pé, achas de madeira em antigas panelas de metal. E um gato amarelo e branco que se espreguiça no sofá e não se incomoda com estranhos.


“É aqui que escrevo muitas coisas.” O “tempo camponês”, como lhe chama, desacelera o ritmo a quem continua a trabalhar 13 horas por dia, a ter férias 20 minutos ou duas horas no máximo, a atravessar continentes de avião, a participar em conferências, a organizar investigações em várias partes do mundo. “Tenho esta quantidade de verdes que posso ver de um ritmo diferente”, diz junto à janela do escritório, comentando que terá de aparar a trepadeira que ameaça tapar-lhe alguns centímetros de vista. “Depois das batatas, virão as favas”, avisa com o olhar nos campos.


O professor catedrático de 73 anos, doutorado em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale, do outro lado do Atlântico, não esquece as raízes. A casa de Quintela mantém a ligação à terra. “Cultivamos tudo. Compramos pouca coisa no mercado, somos pouco dependentes. Produzimos azeite, temos batatas, frangos, coelhos, cabras.” O que se semeia, cria e alimenta é para consumo caseiro. Na manhã do primeiro dia da semana, havia movimentações ao lado de casa que quase passavam despercebidas. Os animais vão ter casa nova e as obras começaram. A mãe, que partiu no final do ano passado, temia que o filho se desligasse das coisas da terra, que perdesse as ligações ao campo. O sociólogo quer mostrar-lhe que isso não acontecerá e a nova guarida para os animais é quase um acto simbólico, uma espécie de homenagem à mãe. “Estamos a fazer um bom curral.”


Lutas perdidas 


Em Quintela, também se fala do passado. “Abandonei a religião aos 22 anos. A religião católica era extremamente conservadora.” Criado na religião católica, com comunhão diária até aos 16 anos, deixou de acreditar. É agora um não-crente que tem uma colecção de Cristos como objectos de arte-sacra. A escrita é uma das suas artes e, além dos artigos científicos, o sociólogo tem livros de poesia publicados e é autor de rimas rap que são cantadas nas ruas do Brasil. “O escritor tem muitas formas de escrever. Estas são as minhas formas de escrever sem notas de rodapé”, revela. Formas de expressar o que pensa sem os limites impostos pelas regras académicas.

No Brasil, em Porto Alegre e cidades vizinhas, foi acolhido pela cultura hip-hop e escreveu rimas rap que reuniu no livro Rap Global e que andam na boca de muita gente. Chegou a dar voz às rimas que construiu em ensaios com rappersbrasileiros. E não se saiu mal. Um meio artístico de expressar raivas, protestos cantados contra sociedades injustas e que marginalizam. Uma outra maneira de falar de racismo ou de colonialismo que as regras científicas não lho permitem.


Em Portugal, a sua poesia foi distinguida. No ano passado, com Pomada em Pó – Poemas Epigramáticos ganhou a 22.ª edição do Concurso Nacional de Poesia de Fânzeres, da Junta de Freguesia de Fânzeres. Concorreu com um pseudónimo e venceu.


É um homem de causas e, em Coimbra, envolveu-se em várias. Não lhe escapava uma. “Desde os anos 1980, envolvi-me em todas as lutas e em todas perdi.” Lutou para que os eléctricos, iguais aos que circulavam em Lisboa, não saíssem dos trilhos. Em vão. “Foram todos vendidos e trocados por autocarros que a câmara achava que eram mais modernos.” Lutou para que o Teatro Avenida, o único teatro arena da cidade, continuasse a abrir portas para se ouvir ópera. O proprietário não foi sensível aos apelos e acabaria por vender o espaço para um supermercado. Hoje está abandonado.


Em meados dos anos 1990, ajudou a erguer a Associação Cívica Pro Urbe. “Pelo direito à cidade, uma associação supra-partidária porque sou adepto da democracia participativa.” Foi acusado de usar a estrutura para se promover e tentar ser presidente da câmara. As críticas tinham alvos a abater. Envolveu-se na luta contra a incineração de resíduos industriais na cimenteira de Souselas, às portas de Coimbra. O PSD estava na oposição, Sócrates era ministro do Ambiente, e a associação lutou até ao fim. Os planos do Governo não avançaram tal como estavam traçados, mas essa luta não lhe soube a vitória. “Um desfecho incerto”, classifica. A reconversão urbana sempre andou debaixo de olho. Mais uma luta perdida. “Construíram-se monstruosidades.”


“A cidade deu-me muitos desgostos”, confessa. O activista local tornou-se activista global. E foi isso que o salvou. Em 2011, estava no Fórum Social Mundial. Do local para o global, do global para o local. Casa em Coimbra, nos Estados Unidos, refúgio na aldeia. Em Quintela, cheira a terra, há chaminés a deitar fumo e mulheres que sacodem e esticam a roupa à porta de casa. Longe do rebuliço dos dias que passa em Coimbra, tem vista para os “contrafortes da serra da Estrela”. “É fundamental mudar de olhar, de lugar.” “Aqui falo mais devagar”, brinca. Gosta de parar nas varandas da casa, decoradas com flores em vasos de barro, e contemplar a paisagem que vai mudando consoante os humores do tempo.


Boaventura de Sousa Santos coordena programas de doutoramento em várias áreas e é director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, referência na área da investigação das ciências sociais, que surgiu em 1978 e hoje trabalha com 127 doutorados. “Sem rebeldia, utopia e esperança não faz sentido ser cientista social”, afirma. Continua um rebelde intelectual. Defende que, nos dias que correm, “é necessário ser rebelde competente”. É optimista e quando fala em utopia, fala em utopia concreta, numa “busca de possibilidades que existem”. “Há possibilidades que não estão a ser exploradas. A utopia é não reduzir a realidade ao que existe”.


A conversa do mundo


Cidadão do mundo, activista local, activista mundial, rebelde intelectual. Respeitado internacionalmente como pensador das ciências sociais, preza o pensamento livre, independente e crítico. Estudou, analisou e produziu conhecimento em muitas áreas. Investigou como as comunidades se organizam, falou em Estado-providência, em classes sociais, publicou trabalhos sobre democracia e direitos humanos, globalização, sociologia do direito, epistemologia. Tem-se debruçado sobre as questões de cidadania, os modos de produção do poder social, o paradigma da modernidade. Ultimamente tem escrito sobre o estado do país nas crónicas que publica naVisão. Sem filiação partidária no currículo, continua a dizer o que pensa. É polémico. “Nunca fui sectário”, assegura. O estado do país não lhe passa ao lado e o conceito que tanto esmiuçou, de Estado-providência, também é usado para falar nos tempos mais apertados. “Não temos um Estado-providência forte, temos uma sociedade-providência forte, que dá uma almofada às carências do Estado”, e que, cada vez mais, se apoia nas relações familiares, de amizade e vizinhança.

Neste momento, dirige o projecto de investigação ALICE – Espelhos Estranhos, Lições Imprevistas: Definindo para a Europa um Novo Modo de Partilhar as Experiências e o Mundo. Foi um dos dois investigadores que conseguiram a aprovação de financiamento do Conselho Europeu de Investigação, um dos mais prestigiados e competitivos financiamentos internacionais para a pesquisa científica de excelência — o que prova muito da sua reputação internacional. O projecto, financiado em 2,4 milhões de euros, envolve vários países — Índia, Moçambique, África do Sul, Equador, Brasil, Bolívia — e um núcleo duro de 20 investigadores internacionais mais uma equipa multidisciplinar, de várias áreas do saber, que estica conforme as necessidades.


O sociólogo quer pensar o mundo ao contrário. “O Norte global, a Europa e a América do Norte sempre sentiram que tinham as soluções e o Sul os problemas. Mas as coisas estão a inverter-se”, refere. O projecto quer perceber o que o Norte global pode aprender com o Sul global porque há problemas e soluções nas duas partes do mundo. ALICE parte essencialmente de duas ideias, de que a experiência do mundo é muito mais ampla do que pode parecer à primeira vista e da dificuldade da Europa aprender com o resto do mundo. “Na Europa, há um certo sentimento que não temos as soluções todas. Com este projecto, pretendemos aumentar a conversa do mundo.” Sem visões colonialistas, sem visões românticas. Mais gente, mais perspectivas. Há poucas semanas, na Índia, organizou uma espécie de oficina universitária em que juntou académicos, líderes de movimentos sociais, mulheres, indígenas que, entre outros assuntos, analisaram o efeito de megaprojectos como a construção de barragens. “Uso o meu saber científico mas só concebo ensinar na medida de poder aprender”, explica.


Continua fascinado pela “diversidade do mundo”. Quintela é o seu refúgio, o regresso às origens, à aldeia tranquila que sossega quem pensa e questiona o mundo. Haverá livros que viajam de mala em mala por vários lugares do mundo e que regressam sempre à casa da família. Ali, abrem-se páginas, lêem-se livros, tiram-se apontamentos, escrevem-se textos, organizam-se aulas, seminários, conferências. Ali, acompanham-se as obras do curral e as colheitas que saem da terra. E prepara-se a próxima viagem do projecto de investigação que está marcada para o Equador. “O que cansa não é o trabalho, é o stress e sobretudo a monotonia”, diz-nos sorridente e sem qualquer sinal de pressa.


Texto de Sara Dias Oliveira, originalmente publicado em Fugas/Viagens