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7 de novembro de 2014

CIÊNCIA VIVA - Os medronhos andam por aí


Portugal é um país em que o sector florestal tem um importante impacto socio-económico. No entanto, nos últimos anos, vários problemas têm afectado as plantações florestais com particular incidência no pinheiro-bravo, espécie que tem sofrido um acentuado decréscimo em termos de área. Embora não tão graves, diversas pragas e doenças têm também atacado outras espécies florestais importantes no nosso país, como o sobreiro e o eucalipto. Estes condicionalismos tornam premente a necessidade de diversificar as espécies com potencial económico de forma a melhor se aproveitarem os nossos recursos endógenos. De entre as espécies com potencial para serem exploradas no nosso país destaca-se o medronheiro, uma espécie arbustiva ou arbórea de pequeno porte conhecida pelos seus frutos vermelhos que nesta altura do ano são comuns um pouco por todo o país.

O medronheiro é uma árvore que cresce bem em solos marginais, com uma vincada tolerância ao stresse hídrico e que regenera bem após incêndios florestais. Estas características fazem dela um importante componente dos ecossistemas, em particular na região centro do país e no Algarve. Dos seus frutos obtém-se uma aguardente aromática muito apreciada e o pólen é utilizado para a produção de um mel de excelente qualidade. Os frutos vermelhos, ricos em antioxidantes, podem também ser consumidos frescos ou processados para a produção de compotas. Apesar deste potencial o medronheiro é ainda uma espécie pouco explorada, talvez em virtude dos produtores não encontrarem no mercado material vegetal de qualidade.

Nos últimos anos, a Universidade de Coimbra, através do Centro de Ecologia Funcional e da Associação UC InProPlant tem desenvolvido uma intensa actividade de investigação com o objectivo de tornar o medronheiro uma espécie mais interessante em termos de produção. Os ensaios efectuados permitiram desenvolver métodos de clonagem eficazes com o propósito de fornecer aos agricultores material propagado não a partir de semente, como é prática comum, mas a partir de árvores selecionadas, com uma maior garantia de produção e de fitossanidade. Para além disso, tem sido preocupação deste grupo de investigação desenvolver plantas de medronheiro com novas características, melhor adaptadas a ambientes particulares. Com este objectivo têm sido realizados cruzamentos entre árvores selecionadas estando os produtos desses cruzamentos em fase de avaliação. Os testes laboratoriais permitiram também a obtenção das primeiras plantas tetraplóides de medronheiro embora o procedimento experimental necessite ainda de ser optimizado. Mais recentemente, as estruturas secretoras das folhas e caule do medronheiro foram caracterizadas tendo sido verificado que produzem um composto que combate os pequenos insectos que atacam as partes jovens e em crescimento activo desta espécie. Em colaboração com a Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra estão em curso ensaios com vista à identificação de metabolitos secundários de interesse.

No âmbito destas actividades de investigação, financiadas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, pelo programa PRODER e pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, tem havido uma estreita colaboração com outras instituições de investigação, designadamente a Escola Superior Agrária de Castelo Branco, a Escola Superior Agrária de Coimbra o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, a Associação de Defesa do Património de Mértola e diversos produtores de medronho. Espera-se que estas sinergias, e outras que venham a ser estabelecidas, possam tornar a fileira do medronho um importante componente do sector agro-florestal.


Jorge Canhoto - Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

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