HOMENAGEM a Herberto Helder - PENACOVA ACTUAL

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26 de março de 2015

HOMENAGEM a Herberto Helder

Havia um homem que ficou deitado com uma flecha na fantasia


Um dos momentos mais marcantes das minhas leituras de Herberto Helder, por sinal muito frutíferas, é aquele em que, no meio de "Photomaton & Vox", se não me engano, surge uma imagem tao palavreamente poderosa que pude sentir algo afiado a cortar-me a língua. Um verso que falava de lâminas e pão (e que não consegui encontrar estes dias). 

Herberto é isso, entranhas. Usa as dele, e sem que haja permissão, põe as nossas à mostra e faz-nos sentir na pele, estômago, fígado, pulmões e língua, as sensações reais, em carne viva. 

Não é poesia para quem procura nela conforto, é inquietação. 

Também não é por ele ter morrido, até porque teve a sorte de ser bem amado em vivo, apesar de poetas como ele continuarem a ser postos de lado, por exemplo, nos famosos programas do secundário, mas leiam-no. É diferente de muito, de quase tudo.  

Um dia, hei-de saber porque é que se "protegem" os adolescentes (na escola) de se apaixonarem pelo auto-conhecimento, por poetas com mundos "loucos", como ele. Muito sobre país e glórias (o próprio Fernando Pessoa é estudado como um troféu), e tão pouco da descoberta dos nossos pequenos grandes mundos... mas isso será outro dia. 

Hoje é mais um dia de dizer adeus e olá aos percursos efémeros de Herberto Helder.

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro. Era ele e os que com ele correm.

 


Texto de Sandra Henriques

crédito da Imagem