PENACOVENSES ILUSTRES - Vítor Seco conquista Prémio Excelência em Hotelaria

Recuou três anos nos estudos para seguir o sonho da restauração e num “lugar especial” chamado Quinta das Lágrimas, Vítor Seco, natural de Penacova e residente na localidade da Rebordosa, freguesia de Lorvão, construiu um grande projecto de “food & beberage” que passa os muros da Quinta. A Associação de Directores de Hotéis de Portugal reconheceu-o e elegeu Vitor Seco como o Melhor Director de F&B a nível nacional



Conquistou o Prémio Excelência em Hotelaria 2015, na categoria “Melhor director F&B”. O que representa esta distinção?

É o reconhecimento de um trabalho de alguns anos dedicado à hotelaria e muito em especial à Quinta das Lágrimas, apesar de ter tido umas pequenas passagens por alguns hotéis da cidade.

Quando terminei o curso de gestão da Escola de Hotelaria de Coimbra ingressei neste hotel, em 1998, e desde aí foi sempre nesta luta, nesta vivência de amores e desamores que é a área da restauração. Se separarmos a hotelaria em dois – alojamento e alimentação e bebidas – a alimentação e bebidas é, seguramente, a área mais trabalhosa, que requer mais controle, mais recursos materiais e humanos, e esta realidade na Quinta das Lágrimas é ainda mais visível porque este é um hotel cujo volume de alimentação e bebidas é muito grande comparativamente ao normal na hotelaria.

Área de amores e desamores?

Trabalho de pessoas, com pessoas e para pessoas e pelo meio ainda colocamos produtos. Quando assim é, a gestão tem de ser vivida com a intensidade dos momentos. Não faz sentido na restauração trabalhar das 9 às 17, faz sentido trabalhar com um projecto onde o objectivo do cliente tem de extravasar para nós e o nosso objectivo tem de extravasar para o cliente. São amores e desamores também porque todos temos a nossa vida pessoal que, normalmente, é deixada um bocadinho de lado em prol destes amores.

Que trabalho desenvolveu para receber este reconhecimento?

O maior reconhecimento que tenho deste prémio é o facto de não ter feito nada para concorrer. O meu nome apareceu, o que é sinal que houve um trabalho de pesquisa da associação. Recebê-lo em 2015 não é verdade que tenha sido só um trabalho de 2015. É um trabalho construído desde 98, quando ingressei na Quinta das Lágrimas, e tem vários projectos, desde o projecto interno, do restaurante Arcadas, organização de eventos ou congressos a nível nacional. Destaco um, pela sua grandeza, que foi reunir em Lisboa, num congresso da Relais Châteaux, os grandes representantes da cozinha mundial.

Que outros projectos destaca?

Destaco dois. Os eventos que se organizam, este em especial da Relais Châteaux, e o projecto Arcadas da Capela, que desde que é projecto gastronómico só faz sentido na Quinta das Lágrimas. Já se tentaram imitações no exterior, sem sucesso. Mas a Quinta das Lágrimas não é só a Quinta das Lágrimas em si. Actualmente temos dois projectos no exterior: o Loggia e a Cafetaria de Santa Clara. Diria que este prémio conquistado tem uma base de trabalho que reside, acima de tudo, na equipa que tem. As pessoas dizem que este prémio é do Vítor Seco e eu ressalvo que não é meu, apenas represento a equipa.

A Quinta é um lugar especial?

Muito especial. Diria que é especial muito antes de ser Quinta das Lágrimas. É mágica pelos amores que viveu, no século XIV, entre Pedro e Inês, que se entrelaçam por nós dentro. Mas não são só os amores por si só. Penso que na alimentação e bebidas, temos de nos dedicar de corpo e alma a ela. Aqui isso é reforçado pelas vivências, pela história, por tudo aquilo que se passou neste maravilhoso palácio que tem história em todo o lado. É um gosto enorme poder estar a conversar com um cliente e dar essa informação.

Há clientes especialmente interessados nesta história?

Cada vez mais, quem vem para aqui já sabe que vem para um palácio que tem um glamour especial. O nosso dever interno é alimentar esse glamour a todos os níveis, desde o quarto, às áreas comuns, ao próprio restaurante. O nosso objectivo é “viver” esses amores de Pedro e Inês. Ao nível do alojamento temos a suite Pedro e Inês; ao nível do SPA temos o tratamento Pedro e Inês, ao nível da gastronomia temos, por exemplo, o vinho Pedro e Inês, feito com duas castas. Não devemos viver à sombra disto, mas devemos alimentar isto, porque isto traz clientes. Se tivermos história para contar, o cliente sai daqui mais enriquecido e satisfeito.

Em tantas nacionalidades que se alojam aqui, alguma especialmente atenta a esta história?

O cliente brasileiro fica embebido em história e quando assim é dá- -nos um gozo enorme podermos estar aqui a conversar e a vender.

Imagina-se a fazer outra coisa?

Faço imensas coisas na vida, como alimentar as tradições, que não tem nada a ver com a Quinta das Lágrimas, mas é importante para o equilíbrio emocional.

O que mais lhe agrada nesta área do turismo?

A restauração e a bebida, mas, acima de tudo, o trabalhar com pessoas para pessoas. A restauração não é uma linha industrial e é isso que torna os projectos mais emblemáticos. Os produtos quando chegam ao prato dos clientes já passaram por tantas mãos e cada cliente é específico no seu gosto. E mais importante que isso são as vivências do cliente naquele momento. O mesmo prato confeccionado da mesma forma num e no outro dia pode não ter o mesmo significado.

O objectivo, no fundo, é proporcionar experiências.

A restauração é proporcionar experiências. A restauração tem um objectivo base, que é saciar um desejo, matar a fome. Queremos ir muito além disso, queremos tornar esse momento uma experiência gastronómica, única, criando uma vontade incrível de voltar.

Depois deste prémio, há outros objectivos?

Ser feliz a fazer o que se gosta e eu trabalho nisto por gosto. Tinha o 12.º ano e recuei três anos para tirar um curso de restauração/bar onde precisava apenas do 9.º ano. Não vim para ganhar dinheiro apenas, vim porque gosto imenso da hotelaria. Comecei a ganhar o vício da hotelaria numa casa de pasto em Penacova e desde aí que o meu objectivo é este. 

Entrevista de Margarida Alvarinhas

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