ANTÓNIO JOSÉ DE ALMEIDA - Figura tutelar das movimentações republicanas em Penacova

Foi com este título que no livro Penacova e a República na Imprensa Local introduzimos algumas páginas dedicadas ao percurso político de António José de Almeida e à relação que de um modo relativamente discreto  manteve com a sua região de origem. Aí, afirmámos que a sua figura terá constituido o principal fio condutor do movimento republicano em Penacova. Sem António José de Almeida (e sem o Jornal de Penacova) estamos convictos, o republicanismo não se teria implantado neste concelho com a mesma pujança.
João Gama Correia da Cunha, que foi seu professor  na escola primária de S. Pedro de Alva, escreveu, numa carta datada de 24 de Julho de 1890, que ''Homens como ele não aparecem todos os dias” e que o tempo se encarregaria de mostrar que esta afirmação não era “lisonja, nem ilusões dum insensato.''
Também Alípio Barbosa Coimbra, no artigo ''Carta Aberta aos meus amigos de Penacova'', publicado na edição de 20 de Julho de 1907 do Jornal de Penacova, escrevia: ''Que melhor patrono poderíamos ter, que esse patrício ilustre, grande pelo coração e ainda maior pela energia da sua vontade e pelo fulgor da sua inteligência?”
No grande Comício, no dia 1 de Agosto de 1909, que se realizou em S. Pedro de Alva junto à “feira dos bois” bem como na inauguração do Centro Republicano, nesse mesmo dia, (edifício onde se situa hoje o talho Abranches) António José de Almeida dirigiu-se pela primeira e única vez, em público, ao povo da Casconha, juntando entre três a quatro mil pessoas.
''Um comício republicano em S. Pedro de Alva! Quem pensava em tal há três ou quatro anos?'' Nesses tempos – prossegue o Jornal de Penacova– ''os republicanos contavam-se pelos dedos. Se mais havia, e havia com certeza, fechavam as suas ideias a sete chaves, não fossem elas passar do domínio das suas consciências.'' Um pouco mais à frente: ''Vergonha é já, hoje, ser monárquico, num país em que a monarquia se incompatibilizou com a liberdade e com a nação. Assim o vai reconhecendo o bom povo desta região, pois já muito poucos se arreceiam de dizer alto e bom som as suas ideias, sem que pese e barafuste o progressismo e o franquismo indígenas''.
Esclarecendo a sua posição naquele comício, António José de Almeida dirá: “O orador veio falar à sua terra porque cá o chamaram. Não vem pedir nem votos, nem influências, nem importância. Nada precisa da República, como nada aceita da Monarquia. Vem junto dos homens da sua terra para os ajudar a redimir e salvar. Não é um galopim que venha pedir votos, é um combatente que vem oferecer o seu braço, o seu cérebro e o seu esforço. Para ele, a sua terra natal é muito, mas a pátria é mais, porque é tudo.”
Na sua intervenção, na qual acabará por incitar ao protesto e à revolta, não esquecerá a ''miséria do concelho, sem estradas, sem escolas, sem hospitais, cheio de fome e varado de miséria, sob a pressão implacável dos caciques, que transformaram esta fecunda região num feudo quasi maldito''.
O Jornal de Penacova, de cariz republicano a partir de 1908 quando Amândio Cabral assume as suas rédeas, irá difundindo os ideais republicanos e exaltando a carreira política de António José de Almeida, quer enquanto deputado, ainda antes da implantação da República, quer quando assumiu o cargo de  Ministro do Interior no Governo Provisório. Também, durante o ano de 1912, aquele jornal  dará grande destaque  à criação e ao ideário do Partido Evolucionista que se demarcará do Partido Democrático de Afonso Costa.
As responsabilidades governativas de António José de Almeida não passam ao lado dos republicanos penacovenses. O facto de este ter assumido a Presidência do Ministério (1º Ministro) e a pasta das Colónias, no governo da ''União Sagrada'', foi largamente noticiado no Ecos de S. Pedro de Alva de 1 de Abril de 1916, preenchendo a totalidade da sua capa com fotografias de Bernardino Machado, António José de Almeida e Afonso Costa.
Em 1919 é eleito Presidente da República, momento alto do orgulho penacovense. Noticiou o Jornal de Penacova : “Foi eleito Presidente da República o sr. dr. António José d’Almeida, nosso ilustre conterrâneo! Ele é a alma da Pátria! Ele é aVida da República! Ele é a honra de um povo! Viva o sr. dr. António José d’Almeida!”
No momento da sua morte em 1929 o quinzenário A Voz de S. Pedro de Alva prencheu a capa com o título em letras garrafais: ''A Pátria e a República em Crepes: morreu o Dr. António José de Almeida. Está de luto a Pátria e a República; está de luto o coração dos portugueses!'' Conta aquele jornal que assim que em S. Pedro de Alva, “terra do venerando democrata, se soube do tristíssimo acontecimento, os seus conterrâneos vestiram de luto.”
A morte de António José de Almeida também é notícia em grande destaque no Jornal de Penacova: "Morreu! Descubramo-nos perante o seu cadáver. Curvemo-nos em respeito e admiração. (...) A República Portuguesa perdeu um dos seus soldados mais valorosos e um dos seus filhos mais ilustres."
Eduardo Silva, que era, à data, o redactor deste periódico, escreverá: “O dr. António José de Almeida era nosso conterrâneo. Nasceu além, na freguesia de S. Pedro de Alva, num lugarzito, lindo e pitoresco, que se chama Vale da Vinha. Lá está o seu solar que nos desperta lembranças da sua mocidade indómita de combatente pelo ideal republicano, desde os seus mais verdes anos.(…) Foi um grande português, homem de uma honestidade intransigente, a sua vida não teve mancha a diminuir o seu valor e o seu prestígio, o seu carácter de fino e puro quilate esteve sempre de pé mantendo-se numa integridade absoluta."
Com o 25 de Abril, a figura de António José de Almeida é novamente enaltecida, depois ter sido, durante muitos anos, praticamente silenciada. No dia 5 de Outubro de 1974 foi descerrada em Vale da Vinha uma lápide na casa onde nascera António José de Almeida e em 1976 foi inaugurado o seu busto no Largo Alberto Leitão, obra escultórica de Cabral Antunes. Usaram da palavra o Governador Civil de Coimbra, Fernando Vale, Romero de Magalhães, membro do Governo,  bem como o Gestor Municipal, José Alberto Costa. Passados 21 anos teve lugar a inauguração de uma  estátua de António José de Almeida, na sede da freguesia da sua naturalidade.
Ainda, a perpetuar a memória deste grande estadista a Assembleia Municipal de Penacova votou, por unanimidade, em 28 de Maio de 1976, a instituição do Feriado Municipal no dia 17 de Julho, que hoje celebramos mais uma vez.

David Almeida

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