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16 de agosto de 2015

TRADIÇÃO - Lavadeiras recordam "barrela" no Rio Mondego


Em tempos não muito distantes, uma boa parte da roupa usada em Coimbra era lavada no rio Mondego, nas proximidade da, agora, praia fluvial dos Palheiros. Para ali convergiam lavadeiras do Casal da Misarela, Vale de Canas, Palheiros ou das Carvalhosas. E por ali pernoitavam, porque o processo de lavar roupa era moroso, mas também para que ninguém roubasse a roupa ou a trabalhosa “barrela”.

Ontem foi dia de recordar esses tempos, numa recriação do Rancho Folclórico Rosas do Mondego, em colaboração com a Associação Desportiva e Recreativa do Casal da Misarela. A homenagem à lavadeira, que se realizou pela sexta vez, transportou muitos dos quase 40 elementos do rancho para o século passado.

Elisa Cruz, hoje com 77 anos, não precisou de pesquisas para saber o que era a vida de lavadeira. Durante anos foi a sua vida e ontem ia apreciando cada movimento e tarefa das “novas” lavadeiras. Próximo da “barrela”, lá deixou escapar que foram «tempos duros», ganhava-se pouco mas «com esse pouco fazia-se muito».

Um fim-de-semana a lavar roupa dava uns 40 ou 50 escudos, 70 já eram uma festa. Mas assim se «formaram os filhos, ajudavam-se umas às outras», observa Isabel Baptista, do Rancho Folclórico. De vez em quando também havia desentendimentos, ou mesmo “porrada”. Os espaços do rio não eram muitos e aquelas que tinham mais roupa acabavam por invadir as áreas das outras, previamente marcadas. Logo, chatice da grossa. Mas eram amigas, nota Isabel Baptista, «mes mo que depois fossem à fonte dizer mal umas das outras».

A camaradagem, de resto, teria de estar presente. O processo de lavar roupa no rio dura quase dois dias e tinham de dormir por ali, a guardar a “barrela”. Ontem fizeram o mesmo, mas já sem a preocupação de ganharem a vida ou com ladrões de “barrelas” (geralmente era gente de fora).

Uma “barrela”, diga-se, era parte importante da lavagem. Num caniço, de madeira, colocava-se a roupa, que já tinha ido à água. Um lençol ficava por cima, coberto de cinza (há quem diga que era para tornar a roupa mais branca, mas servia para que a água, sucessivamente despejada, escorresse lentamente).

A roupa na “barrela” passava por água fria, depois morna e finalmente a ferver. Ficava concluída quando as peças do fundo estivessem quentes, mas a roupa ficava toda a noite a repousar. Manhã cedo era retirada e estendida no areal para o “augar” da roupa: era encharcada à medida que ia secando. Voltava depois ao rio, para ser lavada com sabão (azul ou rosa), antes de ficar definitivamente a secar. Dobrada, regra geral, ao domingo, seria entregue à segunda-feira.

Para uma recriação fiel, com lavadeiras vestidas a rigor, lá estavam ontem as tendas, onde dormiam e ficavam os filhos. Para o jantar havia “sopas fervidas” (uma espécie de migas) com carne. Estava prometida animação e só não se sabia se, como antigamente, as lavadeiras iam tomar banho ao rio.

Fotos obtidas AQUI e texto obtido AQUI