OPINIÃO - As legislativas e o aproveitamento político da prisão de José Sócrates - PENACOVA ACTUAL

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7 de setembro de 2015

OPINIÃO - As legislativas e o aproveitamento político da prisão de José Sócrates

Quando rebentou o caso José Sócrates, Pedro Passos Coelho afirmou que não iria comentar decisões judiciais.

A sociedade em geral interpretou esta forma de estar como sendo a mais indicada. Afinal, a separação de poderes é um pilar da democracia e do Estado de Direito. Mas devemos questionar-nos: foi isto que verdadeiramente aconteceu?

Durante os últimos quatro anos assistimos a uma demonização do governo de Sócrates. Desde o início que o governo de coligação procurou criar uma imagem bem clara: José Sócrates levou o país à bancarrota e agora chegámos nós e vamos pôr as coisas nos eixos.

António José Seguro, então líder do Partido Socialista, deixou esta ideia assentar e o PS cometeu aqui um dos seus primeiros erros. Seguro quis afastar-se da ala Socrática e por isso respondeu aos ataques que a direita dirigia à antiga liderança do PS com silêncio, esperando que isto o ajudasse a consolidar a sua própria posição no partido. O tiro saiu-lhe pela culatra quando perdeu a liderança para António Costa.

Por esta altura, a coligação já tinha conseguido implantar com relativo sucesso a ideia de que a culpa de tudo tinha sido do governo de José Sócrates. Dentro do próprio PS existia quem acreditasse nisso, como se de um momento para o outro a história tivesse mudado e em vez da sucessão de erros, derrapes orçamentais, PPP’s e Cavaco’s e Santana’s desta vida que marcaram a governação nacional desde 1975 nunca tivessem existido.

Isto é, segundo a coligação, a situação económica do país não era responsabilidade dos partidos do chamado arco da governação.

A responsabilidade caía exclusivamente sobre o PS de José Sócrates.

E, felicidade das felicidades, António Costa tinha feito parte desse governo.

Desde aí, a estratégia eleitoral da coligação foi bastante simples: colar a situação financeira do país à governação de José Sócrates e por associação a António Costa.

Não sejamos ingénuos: a prisão de Sócrates, política ou não, teve e continuará a ter implicações políticas. Conscientemente ou não, a associação está lá. E isto aos olhos do eleitor não é indiferente.

Um golpe de génio da máquina eleitoral da direita, se ignorarmos todas e quaisquer implicações morais.

Rui Sancho