GENTE COM HISTÓRIA: José António de Almeida (1819-1901) - PENACOVA ACTUAL
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5 de novembro de 2015

GENTE COM HISTÓRIA: José António de Almeida (1819-1901)


Na galeria de personalidades que marcaram a história do nosso concelho deverá constar, com todo o merecimento, o nome de José António de Almeida (1819-1901). No site da Câmara Municipal encontramos um separador com a designação “Gente com História”. Consideramos que este espaço  se encontra muito incompleto, esquecendo eminentes figuras do mundo da política, das letras e da acção social e humanitária. Referir apenas - como acontece - António José de Almeida, Vitorino Nemésio, Teresa, Sancha e Mafalda, Emídio da Silva, Raúl Lino, António Marques, Aniceto Simões, Eugénio Moreira, Marquês de Pombal, Arthur Wellesley e os Duques de Cadaval é, de facto, muito pouco. Penacova tem na sua história muito mais de uma centena de individualidades que, com todo o mérito e justiça deveriam aí (ou noutro canal de divulgação) constar e desse modo serem conhecidas de todos os penacovenses.
E uma delas, como já referimos, é José António de Almeida. Não apenas pelo facto de ser pai de António José de Almeida, mas principalmente porque foi presidente da Câmara e desempenhou outras tarefas ao serviço do bem público. Apesar de ter morrido nove anos antes da implantação da República, as circunstâncias da sua adesão ao republicanismo, em 1890, são a manifestação do seu carácter, que naturalmente terá transmitido aos seus oito filhos, mas de um modo especial, àquele a quem havia dado o nome de António José em 1866. José António de Almeida, desiludido com a Monarquia que sempre servira, apresentou, em 1890, na reunião da Câmara de Penacova, uma declaração que merece ser transcrita:

''Senhores Vereadores: Ractificando o protesto com que assinei a acta da sessão de sete do corrente e apoiado na decisão do Ex.mo Senhor Governador Civil deste distrito, venho novamente apresentar-vos a declaração seguinte:

Nunca tinha pensado que na idade de setenta anos e que tendo empregado na maior parte deles as minhas forças na sustentação e defesa da monarquia e liberdades pátrias, me havia de fazer Republicano!

Realizou-se, porém, este pacto desde que, no dia vinte e cinco de Junho último, vi que uma sentença injustificadamente rigorosa condenava em três meses de prisão o meu filho António José d’Almeida, arrancando-mo dos braços e aferrolhando-o na cadeia pública; acrescendo para maior mágoa minha, o espectáculo altamente condenável da polícia civil de Coimbra acutilar barbaramente a generosa e patriótica academia e o nobre povo daquela cidade, quando acompanhavam e faziam uma calorosa manifestação de simpatia àquele meu filho.

Convenci-me então que era um alto dever de consciência, deixar para sempre, de prestar o meu apoio a uma instituição em que há leis que permitem o atrofiamento da liberdade de expressão do pensamento e maltratar impunemente quem, na melhor ordem, prestava generosa homenagem a um rapaz cujo único crime era manifestar as suas ideias num momento em que Portugal passava por uma crise angustiosa.
Conheci desde então que é ao partido Republicano que devo consagrar o meu pouco valioso, mas espontâneo esforço; porque é ele o único que pode salvar da vergonha de nos afundarmos no descrédito e na desonra. Pertenço hoje a esse partido altivo e nobre e com isso me honra; trabalharei para a sua prosperidade e é esse o meu dever; lutarei o pouco que puder para o seu triunfo e com isso me darei por satisfeito''.
Nesta declaração, José António de Almeida, apresenta também o pedido de demissão do cargo de Presidente da Câmara. No entanto, a vereação não aceitou essa intenção, mantendo-o na presidência até 1892, ano em que terminou o mandato.
Nasceu a 13 de Janeiro de 1819 no lugar da Venda Nova, junto à actual localidade de Silveirinho. Com apenas 9 anos de idade foi para Évora onde serviu como caixeiro. Aos 17 anos regressou à terra natal, montando uma fábrica de destilação de álcool na Raiva.  Foi capitão no Movimento da Maria da Fonte em 1846. Enfrentou o célebre João Brandão contando-se que, certo dia, próximo de S. Pedro de Alva, foi ameaçado de morte por aquele "assassino", para uns, "herói", para outros. Filiou-se no Partido Histórico, pelo qual foi pela primeira vez eleito vereador da Câmara de Penacova. Militou mais tarde no Partido Progressista "com uma dedicação exemplificante". Colaborou com as presidências camarárias do dr. Joaquim Correia de Almeida, do Conselheiro Alípio Leitão e de Alberto Leitão. Foi presidente da Câmara em três vereações  (1887 a 1889).” – refere o Jornal de Penacova.  
No entanto, de acordo com apontamentos recolhidos  nas actas camarárias, terá exercido o cargo até 1892. Sucedeu a Alberto Leitão, embora à data, a presidência fosse,  em regime de substituição,  assumida por Joaquim Pitta d´Eça Aguiar.  A José António de Almeida sucedeu Joaquim António da Silva Tenreiro.
E prossegue o Jornal de Penacova: “Durante dezoito anos serviu o município, como vereador e presidente. Mesmo com as dificuldades dos maus caminhos, poucas vezes terá faltado às reuniões. Exerceu funções de Juíz Ordinário do antigo Julgado de Farinha Podre. "Inteligente e erudito" – refere o periódico – "apesar de não ser bacharel" assinava jornais de jurisprudência e dava consultas aos amigos e vizinhos.”
Pessoa muito estimada na região, contou com  cerca de duas mil pessoas no seu funeral. As cerimónias foram presididas pelo Dr. Alípio Barbosa Coimbra, que, à beira da campa, e em nome do filho, António José de Almeida, que na altura se encontrava em S. Tomé, usou da palavra salientando "o ponto mais característico da sua individualidade: as arreigadas convicções liberais".
Sobre a formação do carácter dos seus filhos - refere o Jornal de Penacova - soube imprimir-lhes  "o rumo nobilitante do trabalho e insinuar-lhes a tenacidade que triunfa, quando sustentada no caminho da honra."
Casado com Maria Rita das Neves Almeida, teve oito filhos: José António de Almeida Júnior, comerciante; Maria Rita das Neves Almeida e Sousa (casada com Jerónimo Duarte Ferreira de Sousa); Joaquim António de Almeida (falecido em S. Tomé); Virgínia das Neves Almeida e Coimbra (casada com José de Almeida Coimbra, comerciante no Porto); Albertina das Neves Almeida e Silva (casada com Eduardo Pedro da Silva, farmacêutico); Francisco António de Almeida;  António José de Almeida ( à data da morte do pai, Juíz da Relação de Luanda e médico em S. Tomé, respectivamente). Por último, João António de Almeida, proprietário.
Morreu na sua casa de Vale da Vinha, vítima de pneumonia, no dia de Todos os Santos.
Na sessão de 5 de Novembro de 1901 (faz hoje 114 anos),  a Câmara Municipal,  presidida pelo Padre Dr. José Albino Ferreira aprovou um “voto de sentimento" pela morte do “último representante dos velhos filhos da Casconha” - nas palavras de Alípio Barbosa proferidas no final do elogio fúnebre - “que deram a esta terra brazões de honra, fidalguia e trabalho”.
David Almeida
Fontes:
Jornal de Penacova
Penacova e a República na Imprensa Local / David Almeida
António José de Almeida / Luís Reis Torgal

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