PINTURA: A Ferreirinha, Eugénio Moreira e o Vale de Penacova - PENACOVA ACTUAL
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10 de abril de 2016

PINTURA: A Ferreirinha, Eugénio Moreira e o Vale de Penacova

A Ferreirinha,
quadro de Eugénio Moreira
O quadro Vale de Penacova  constitui, segundo os especialistas em pintura, um dos melhores trabalhos de Eugénio Moreira. A sua obra insere-se  no conjunto dos pintores de segunda geração naturalista, onde se destacam nomes como  Roque Gameiro e Aurélia de Souza. A Ferreirinha e Auto-Retrato são outras das obras mais representativas deste pintor que, na sua curta existência, se cruzou com as gentes e com as paisagens de Penacova.
Eugénio Moreira, um nome, porventura esquecido dos penacovenses, apesar de  pontualmente  recordado. Em 1997 por Martins da Costa no Jornal de Penacova e em 2013 por Leitão Couto e David Almeida no livro Patrimónios de Penacova. O “site” da Câmara também o refere, mas sem grande relevo, na rubrica “Gente com História”.
Segundo Martins da Costa, Eugénio Moreira realizou aqui  "uma boa parte da sua obra, hoje quase desconhecida, não obstante o valor que lhe era reconhecido, sobretudo nos meios artísticos. E por aqui se perdeu também [essa obra], mal acautelada que foi”.  Os trabalhos de Eugénio Moreira estarão dispersos pelo país e alguns permanecerão ainda em Penacova. É Martins da Costa que diz, na referida crónica, ser do seu conhecimento um quadro que estaria no Gabinete da Presidência da Câmara, um retrato que lhe passou pelo atelier para restauro e uma paisagem que pertenceria a uma pessoa de Penacova. Pelo que nos é dado saber, na Câmara existe um quadro sim, mas de José Campas, representando o Mirante. Quanto ao retrato “admiravelmente bem pintado, que terá sido pessoa importante na época” talvez seja aquele que referimos na obra Patrimónios de Penacova. Recordámos aí que na sessão da Câmara de 18 de Maio de 1907, por ocasião do "primeiro aniversário do falecimento do Conselheiro Artur Ubaldo Correia Leitão", foi decidido colocar o retrato desta figura penacovense na Sala de Sessões. Retrato que "fora feito a óleo pelo notável pintor Eugénio Moreira, residente nesta Vila", conforme se escreve nos documentos referentes ao assunto. Quanto ao outro quadro referido por Martins da Costa pensamos que poderá ser uma obra que conhecemos, datada de 1906, representando a Barca do Concelho.
Vale de Penacova,
pintura de Eugénio Moreira
Não restam pois dúvidas que Eugénio Moreira passou longos tempos em Penacova. Morreu em 1913, com apenas 42 anos, vítima de tuberculose e também de demência. A sua ligação a Penacova fica também marcada pela existência de um tal Guilherme, seu filho, que terá tido uma vida curta e infeliz, corroída pelo vício e pela miséria. Terá sido fruto da relação do pintor com uma jovem solteira da vila ou arredores. Nesse sentido, é também Martins da Costa que escreve: ”De um dos seus quadros mais divulgados “uma formosa camponesa” e dos amores a que ela devem estar ligados, nasceu a obra e esse filho também."
Voltemos aos dois quadros emblemáticos do pintor. Sobre “A Ferreirinha” e sobre a paisagem envolvente, escreveu Antero de Figueiredo: “Aqui pintou o quadro A Ferreirinha, que é o retrato de uma rapariga do campo, ingénua e triste. Está sentada numa pedra, ao ar livre, à luz de uma tarde outonal. Veste simples blusa encarnada, saia azul, e tem na cabeça, atado nos cabelos, um lenço vermelho escuro, com pintas amarelas de ouro velho. Olha com franqueza para quem a olha, e as mãos, postas uma na outra, caem no regaço, abandonadas e despidas de outra graça que não seja a da sua naturalidade.
O fundo do quadro são árvores de verde quási sem luz, um curto vale com manchas de casas e tons vermelhos de urze seca, a tira do rio e uma nesga de céu alto e alegre. (...) No olhar dessa rapariga há a tristeza suave dos cinzentos olivais beirões ; e nas curvas do seu calado corpo de cachopinha solteira, que vestidos baratos honradamente resguardam, as mesmas graças singelas desse estreito rio de poucas águas, fiando satisfeito por entre areiinhas de ouro."
Ao  quadro “Vale de Penacova” dedicou Abel Salazar, em 1955 um opúsculo ilustrado com quinze páginas, separata de "O Tripeiro", onde afirma que se trata de “uma das raras obras de pintura portuguesa moderna”. Para ele, “o malogrado autor de “Vale” é, com Henrique Pousão, o maior dos paisagistas portugueses. Entre os dois existem diferenças na qualidade, não em valorização: são duas visões, porém igualmente elevadas”.
Eugénio Moreira
1871-1913
Auto-Retrato
Eugénio Moreira foi homenageado postumamente numa exposição organizada pelo seu sobrinho, Fernando Ferrão Moreira, no Ateneu Comercial do Porto em 1956. O Museu Nacional de Soares dos Reis possui  três telas da sua autoria: um auto-retrato inacabado, onde o pintor se representa a meio-corpo, com paleta e pincéis e rosto entristecido; e as suas duas obras mais elogiadas: a paisagem Vale de Penacova, obra patente na Grande Exposição do Norte de Portugal de 1933 e na 1.ª Exposição de Arte Retrospectiva (1880-1933) da Sociedade Nacional de Belas Artes em 1937; e o retrato A Ferreirinha exposto em Lisboa, em 1937.

Fazemos nossas as palavras de Martins da Costa, outro pintor quase esquecido (esperamos seja recordado condignamente  muito em breve, passado que já foi o 10º aniversário da sua morte) mas importantíssimo no panorama cultural de Penacova: 
“Eugénio Moreira, a quem Penacova tanto ficou a dever, na divulgação das suas belezas naturais, bem merece a singela homenagem que aqui lhe tributamos.”

David Gonçalves de Almeida

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