EFEMÉRIDE - As Festas de Penacova

Capa do opúsculo publicado pelo Diário de Notícias em 1908
compilando as notícias dos jornais, os discursos proferidos,
as poesias declamadas no Sarau...
A inauguração do Mirante em 31 de Maio de 1908 deu lugar a “manifestações populares de simpatia, a cerimónias oficiais e a festas particulares tão memoráveis” que ainda hoje, passados que são cento e oito anos, permanecem na memória dos penacovenses.

Naquele local existia já uma espécie de terraço conhecido por mirante do Castelo, mandado construir por António Casimiro Pessoa, que viria a ser avô de António Casimiro Guedes Pessoa (um dos fundadores dos Bombeiros). Conta quem sabe que por volta de 1900 Manuel Emídio da Silva terá vindo visitar o mosteiro de Lorvão e, acompanhado por Augusto Mendes Simões de Castro,  passou também por Penacova, ficando maravilhado com as belezas naturais desta terra. Pouco tempo depois aparece no Diário de Notícias um artigo assinado por L. Mano (um pseudónimo seu), onde descreve dum modo apaixonado tudo o que os seus olhos extasiados haviam observado. As repercussões foram tais que a partir daí Penacova começou a ser visitada por muitos “excursionistas” que antes desconheciam este belo recanto de Portugal.

Pormenor da notícia  publicada no DN

Com a colaboração do Presidente da Câmara Municipal, José Albino Ferreira, o entusiasmo de Emídio da Silva e o apoio financeiro de alguns penacovenses e admiradores de Penacova, avançou-se para a construção do Mirante.

Para a inauguração foram convidadas personalidades importantes da vida da capital e da cidade dos estudantes. Pelas cinco da tarde do dia 30 de Maio começaram a aparecer à Várzea os primeiros carros da comitiva. Lenços a acenar, foguetes a estralejar. Em S. João são é recebida em apoteose pelo  povo enquanto a  Filarmónica Penacovense executa o seu hino. Mais acima, no Largo Alberto Leitão, aguardava-os o Presidente da Câmara, a  Vereação e muitas pessoas da “elite” do concelho.
Seguiu-se uma visita ao Penedo da Cheira, onde foi prestada uma homenagem a Simões de Castro. Aí seria colocada, poucos dias depois, a lápide desenhada por Raul Lino, com a designação de “Penedo do Castro”.

À noite houve arraial no Mirante. De seguida os convidados foram presenteados pelo casal Joaquim Augusto de Carvalho e Raimunda Martins de Carvalho com um Sarau que teve lugar no seu palacete (actual Casa de Repouso). Noite de glamour, discursos, poesia, piano...até às três da madrugada, segundo referem os jornais da época.

No dia seguinte, domingo, seriam treze horas quando se iniciaram as cerimónias da inauguração. A bandeira nacional foi içada pelo General Jacinto Parreira. Depois de tocado o Hino Nacional pela Filarmónica Penacovense, Alfredo da Cunha, director do Diário de Notícias, descerrou a lápide que lá permanece ainda hoje com a inscrição “ Mirante Emygdio da Silva-31-5-908”. Seguiram-se os discursos. Duas senhoras de Lisboa, ligadas à família Lino, ofereceram à Câmara uma bandeira bordada com as armas de Penacova e, em nome dos artistas do concelho, José Esteves Vizeu ofereceu a Emídio da Silva um quadro  com a respectiva dedicatória. Foi exarado um Auto de Inauguração que foi assinado pelo Executivo da Câmara e por cerca de cento e vinte personalidades de Lisboa, de Coimbra e de Penacova e Arganil.

Depois de descerrada a lápide, Fernando Emídio da Silva declamou um soneto de Alfredo da Cunha que terminava com os versos: “Adoramos a Arte e a Beleza / onde quer que irradie a natureza / no som, na luz, na cor, no céu, no mar... // Mas jamais como aqui - neste bendito / trecho de terra nossa - o Infinito / Para tal culto ergueu tão lindo altar!”

Terminada a inauguração foi oferecido um banquete (também no Palacete de J. Augusto de Carvalho) por uma comissão formada por José Albino Fereira, Luis Duarte Sereno, Arcipreste José Maria Leite (irmão do Deão Leite), Joaquim A. de Carvalho, Joaquim Leitão, Daniel da Silva, Prior José Marques Cruz Curado, José Pedro Henriques e José Leitão.

“Associada à recordação imorredoira desta paisagem maravilhosa, nós levamos de Penacova a perdurável lembrança do acolhimento penhorantíssimo que nos foi feito” - disse Fernando Mattos Chaves já na parte final do banquete.

Responderia depois o Jornal de Penacova: “E porque o nosso amor próprio também precisa de alguma coisa que o console, diremos cheios de alegria, que o povo de Penacova soube receber condignamente o seu grande admirador [Emídio da Silva] e provar-lhe  aberta e francamente a alta consideração e estima que tão merecidamente lhe dedica”.

David Almeida



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