PATRIMÓNIO - As Terras Galegas, raro documento sobre território comum a Coimbra e Penacova - PENACOVA ACTUAL
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2 de junho de 2016

PATRIMÓNIO - As Terras Galegas, raro documento sobre território comum a Coimbra e Penacova

Entre os diversos forais novos que D. Manuel I concedeu a comunidades da Região de Coimbra, no séc. XVI, há um que merece particular referência, por ter sido concedido a um território muito abrangente, não circunscrevendo a outorga do diploma, como era norma, a um concelho. Refiro-me ao foral das Terras Galegas, concedido nos últimos momentos da reforma manuelina, a 25/04/1520.

Este foral, à guarda da Torre do Tombo, foi registado no Livro dos Forais Novos da Estremadura, com a titulação de Foral pera a terra gallega Reguengo del Rey em Terra de Cojmbra. Em variada documentação sobre a tutela dos arquivos municipais e distritais, surgem esparsas referências à sua existência, dado o seu cariz regulamentar e administrativo.

Perguntará o leitor: mas onde ficam essas Terras Galegas? Ao que vos responderei, que tal território, por mim delimitado na Monografia da Freguesia de Botão (2002), com apoio dos venerandos homens conhecedores da microtoponímia, percorre esta freguesia a norte/nascente do eixo Botão-Larçã-Paço, sendo o seu coração constituído pelos casais que se localizavam na Mata de S. Pedro, Sanguinhal e Ponte da Mata. Contudo, dele também fazia parte uma área muito considerável das actuais freguesias de Sazes e Figueira de Lorvão, do Município de Penacova, incluindo a parte Oeste/Norte da bem conhecida Serra do Buçaco.

Trata-se, pois, de um imenso território, que se estendia por diversos quilómetros quadrados e, entre as diversas particularidades históricas que o envolvem, está o facto de ter sido disputado pelo Mosteiro de Lorvão e o Rei D. Dinis no séc. XIII, designadamente, pela sua riqueza de florística e faunística - traço que se mantém na actualidade e que vale a pena (re)descobrir.

Quanto à origem da designação Terras Galegas, tem-se apontado como possibilidade mais consistente a fixação de colonos oriundos da Galiza, que ali se instalaram na sequência das guerras da reconquista cristã, conjugada com intentos de povoamento dinamizados pelos nossos primeiros monarcas.

Faltam quatro anos para que possamos celebrar os 500 anos da outorga deste foral. Embora até lá muita coisa possa acontecer, fica desde já registado o meu desejo, que será, certamente, partilhado por muitos conimbricenses e penacovenses. Que os decisores da política cultural saibam unir estas freguesias e respectivos municípios em torno de tão extraordinário acontecimento.

João Pinho

P.S. – Já depois de escrever estas linhas tive conhecimento que o projecto «Memórias de Penacova» é um dos quatro finalistas ao prémio Município do Ano Centro. Será que na recolha do património material e imaterial consta tão relevante documento? Oxalá que sim…