PATRIMÓNIO(S) - Terras Galaicas e Terra Galega - PENACOVA ACTUAL
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19 de junho de 2016

PATRIMÓNIO(S) - Terras Galaicas e Terra Galega

Vem este escrito a propósito do texto que João Pinho publicou há dias no Penacova Actual. Historiador nosso conhecido através de uma das muitas monografias por si publicadas: Botão. Mil anos de história(s). Livro que consultámos ao preparar Patrimónios de Penacova, atendendo às estreitas ligações históricas entre Botão e o Mosteiro de Lorvão. Curiosamente, também nesta publicação de J. Leitão Couto e David Almeida, prefaciada por Nelson Correia Borges, ficou registada a pertinência de uma parceria cultural entre algumas freguesias dos concelhos de Coimbra e Penacova. Propõe agora, e muito oportunamente, João Pinho, que esse intercâmbio se concretize tendo como  elemento congregador o Foral concedido às “Terras Galegas” por D. Manuel I, em 1520.

A monografia sobre Penacova que estamos a preparar já inclui a referência às Terras Galegas, a par de outros apontamentos sobre as Terras da Irmânia e as Terras da Casconha.  Sobre esta questão das terras galegas podemos ler uma crónica do Notícias de Penacova, que apesar de assinada por “Carochinha” sabemos tratar-se de José Albino Ferreira, formado em Teologia e em Direito. Além de sacerdote e notário, foi Presidente da Câmara de Penacova. Personalidade penacovense dotada de uma vasta cultura que nos permite considerar como credíveis as considerações que fez nesse artigo publicado em 1940 e que reproduzimos de seguida:

“À SOMBRA AMENA DA PÉRGOLA...CONTOS DA CAROCHINHA : TERRAS GALAICAS E TERRA GALEGA”

“A Carochinha já contou como ao norte de Portugal se apagou o nome de terra galaica; porque os seus habitantes queriam antes denominar-se portucalenses.

Do Douro ao Mondego não chegou a firmar-se a denominação de terras galaicas senão na região montanhosa que se estende das planuras da Bairrada até ao rio Mondego, porque os seus habitantes, cristãos, haviam sacudido o domínio dos mouros, muito antes do Conde D. Henrique estabelecer definitivamente o seu Condado ao norte do Mondego, firmando-se em Coimbra e Montemor-o-Velho.

Eram portanto galaicos ou galegos só os cristãos montanheses da região penacovense. Com o andar dos tempos a denominação de terras galaicas fez evolução para terra galega e ficou a aplicar-se no uso corrente da linguagem regional, apenas a uma parte que agora os povos vizinhos, ainda chamam terra galega.

A Carochinha vai fazer uma revelação que julga necessária. Uma das suas nobilíssimas costelas vem-lhe muito legitimamente da terra galega por sua avó materna que era natural do lugar de Telhado e pertencente a famílias indígenas dali, pelo que são seus parentes, a maior parte dos moradores actuais de Telhado, que é bem o coração da Terra Galega...

De há muitos anos vêm da Galiza muitos rapazes procurar trabalho em Lisboa sujeitando-se a trabalhos muito pesados como o de descarregadores. Em razão de virem da Galiza eram comummente chamados galegos...

Esta denominação passou a dar-se a todos os indivíduos, de condição humilde, que se sujeitavam aos trabalhos mais servis, tendo assim significação deprimente.

Com esta significação passou a palavra o Atlântico pois os nativistas brasileiros procuram deprimir os emigrantes de Portugal alcunhando-os de galegos.

A verdade é que, o termo, em boa linguagem, não tem significado deprimente, pois galaicos foram os primeiros cristãos que em Portugal se libertaram do domínio mouro e neste caso estão os antigos montanheses de quem descendem os penacovenses, habitem ou não a região que agora se chama terra galega.

Em documentos oficiais não se emprega hoje a denominação de terra galega, talvez por delicadeza, para não melindrar os habitantes dela, que injustificadamente se envergonham desta denominação por ignorarem o seu real significado.

Mas outrora não era assim. A Carochinha teve em suas mãos, há umas dezenas de anos, a certidão autêntica de teor da Carta Régia que criou o Couto de Monte Redondo. Era ela escrita e assinada com belíssima caligrafia pelo notável cronista e poeta Garcia de Resende. Neste documento, que a Carochinha julga não estar perdido, se lê em boa letra “Couto de Monte Redondo, na Terra Galega”.

Porque se reduziu a área da terra galega? É pelo seu comércio que as terras distantes se relacionam e tornam conhecidas. Muita gente desconheceria a Índia se não fosse o chá. Muito inglês sabe que há uma cidade portuguesa com o nome de Porto, pelo fino vinho do Douro, que dali se exporta.

A Terra Galega não perde o nome porque os seus habitantes  se dedicam especialmente à criação de gado bovino. Os criadores vão comprar os novilhos em Trás-os-Montes; emparelham-nos e começam a ensiná-los a puxar o carro. Aprendem desde crianças a distinguir as boas castas. Quando na Bairrada ou na Região Poiarense algum lavrador pretende adquirir uma junta de bezerros de certa marca e boa casta, toma a sua aguilhada e diz à família que vai ver se a encontra pela terra galega e lá corre, de lugar em lugar, a freguesia de Figueira, indo até à Aveleira e ao Roxo, voltando em regra satisfeito com o resultado. Assim explica a Carochinha o motivo porque a denominação de terra galega teimosamente se mantém.

Não tenham os moradores dela, desgosto por isso. Se alguém, desdenhosamente chamar da terra galega a algum morador dela, ele com a aguilhada da praxe chama-lhe mourisco.”

David Almeida


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