OPINIÃO - Somos Portugueses, somos Campeões!



10 de Julho de 2016 vai ficar na história como o mais brilhante dia da história do desporto português. E não estou a falar só de futebol: Portugal dominou o dia no Europeu de Atletismo. Sara Moreira é a nova campeã europeia da meia-maratona, tendo Jéssica Augusto alcançado a medalha de bronze. Estes resultados, juntamente com a qualificação de 12º lugar da atleta Dulce Félix (que já conquistou uma medalha de prata também), culminaram na medalha de ouro para Portugal na Taça da Europa de distância, um prémio que é atribuído pela primeira vez e para o qual contam os 3 melhores registos das atletas de cada país. Tsanko Arnaudov, que pelo nome não parece, mas é português, conquistou a medalha de bronze no lançamento do peso. Ainda nos destaques individuais, Rui Costa foi segundo lugar na 9ª etapa da Volta à França em bicicleta. Nas selecções, o voleibol masculino conquistou a medalha de prata na Liga Mundial e a selecção de basquetebol feminino sub-20 foi Campeã da Europa.
Não posso ser hipócrita e dizer-vos que estava frente à televisão a ver atentamente cada detalhe e cada vitória. Não vibro com atletismo, não como espectador, mas isso não me impede de reconhecer a importância destas conquistas e creio que esta é mais uma grande oportunidade para percebermos, enquanto sociedade, que o desporto em todas as suas variedades é vital, particularmente para os nossos jovens. O desporto praticado desde a infância ajuda ao desenvolvimento físico e psicológico das crianças, traz imensos benefícios para a saúde, transmite bons valores de ética, disciplina, empenho e - talvez o mais importante - cria laços entre as pessoas, emoções, aquilo que nos faz, enfim, humanos.  Pôr os filhos a fazer desporto deveria ser uma prioridade para os pais, sempre que exista essa possibilidade.
Todos estes feitos são importantes, mas nenhum brilha com a intensidade da conquista do Campeonato Europeu pela selecção portuguesa de futebol.
O que se passou em Paris foi o zénite da verdadeira epopeia que foi o percurso da comitiva lusitana por terras gaulesas. Recordemos.
A caminhada
A convocatória foi, como sempre, pouco consensual. Alguns como Cedric, ou Moutinho pouco tinham mostrado esta temporada, outros como Ricardo Carvalho e Bruno Alves não prometiam o andamento de outros tempos, e de Renato Sanches - parem de lhe chamar Sanchez por favor – dizia-se estar muito “verde” para estas andanças. Quando a bola começou a rolar, o empate com a Islândia, país sem tradição futebolística e que participou pela primeira vez num Europeu, foi uma desilusão para os portugueses e motivo de chacota pela comunidade internacional. O empate a zeros com a Áustria fez aparecer o nervoso miudinho, bem patente no olhar e sorriso irónico de Ronaldo, e o empate com a Hungria, um jogo electrizante de parada e resposta, assegurou a sobrevivência da nossa selecção, mas assemelhou-se ao cantar do cisne. Portugal enfrentava a Croácia no primeiro jogo a eliminar e parecia que ficaríamos por aqui.
Mas não. Recusámo-nos a morrer. Quaresma empurrou a bola para o fundo da baliza e Portugal estava nos quartos-de-final e nesse jogo deu-se o ponto de viragem. Portugal sofreu cedo, lutou, marcou e levou a vitória nos penalties.
O resto do mundo perguntava-se como é que nós chegávamos às meias-finais. Olharam para a nossa equipa com desdém, chamaram o nosso futebol de nojento, atribuíram a nossa performance à sorte e até havia alguma raiva pelo simples facto de termos afastado a Croácia, a selecção que melhor jogava, diziam.
Mas a verdade é que os sinais positivos sempre estiveram lá, nós é que temos tendência a olhar para as coisas más. Não houve nenhuma selecção que se tenha destacado pelo bom futebol. Vimos embates entre grandes selecções, como o Itália-Alemanha que foram desilusões do ponto de vista do espetáculo. Apesar de não ter apresentado um futebol positivo, Portugal esteve naquele que, para mim, foi o melhor jogo do torneio: o 3-3 contra a Hungria, ainda não perdeu um único jogo oficial desde que Fernando Santos assumiu a liderança e foi também uma das melhores defesas do campeonato, tendo sofrido apenas 1 golo, contra a Polónia, na fase de jogos a eliminar.
O célebre episódio do “dégueulasse” serviu para unir ainda mais o grupo e toda a gente à sua volta. Em campo deu-se a mais fantástica metamorfose: Ronaldo. Aquele jogador maniento, com tiques de vedeta e que exalava frustração em tudo o que fazia de mal mudou aparentemente do dia para a noite. Fez-se um jogador solidário, capaz jogar com a equipa e para a equipa. E a equipa reconheceu-o. Tornou-se efectivamente no Capitão da Selecção Nacional. O jogo da semi-final foi uma mera formalidade, Portugal atingiu aí a sua maturidade competitiva.
A Final
E que final épica! Portugal entrou com a tenacidade de sempre, fez das tripas coração quando o seu capitão e melhor jogador caiu no relvado no jogo mais importante da sua vida, teve fé nas luvas de Rui Patrício e o quando o Eusébio encarnou no patinho-feio da selecção deu-se a merecida explosão de alegria: Éder recebe à entrada da área com o central nas suas costas, aguenta a carga e corta para o meio, ainda procura o melhor equilíbrio, mas o momento é aquele. Num movimento técnico irrepreensível atira de longe para o fundo das redes francesas. Portugal é Campeão Europeu!
O que fica?
Há muita coisa que vai mudar no seguimento deste campeonato. A percepção para com certos jogadores, com Éder à cabeça por exemplo. Mas interessa constatar aquilo que fica, aquilo que aprendemos e que se pode extrapolar para além do desporto. Talvez o mais importante seja a ideia de que uma liderança forte pode fazer toda a diferença. Fernando Santos fez uma demonstração exemplar de liderança, um discurso confiante sem ser exacerbado, a capacidade para criar uma verdadeira equipa, maior que a soma dos indivíduos, e a crença no esforço honesto, a capacidade de errar, pensar e ter a coragem de voltar a tentar.
A todos vós, Campeões, o meu muito obrigado!
Rui Sancho

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