PATRIMÓNIO - História da Alimentação Regional - A Lampreia como forma de pagar favores da Corte - PENACOVA ACTUAL
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7 de julho de 2016

PATRIMÓNIO - História da Alimentação Regional - A Lampreia como forma de pagar favores da Corte

O arroz de lampreia guarnecido de grelos, servido em prato raso de barro, é considerado uma iguaria gastronómica requintada da nossa região, vendida a preços bem elevados, com especial relevância nos municípios de Penacova, Coimbra e Montemor-o-Velho.

Nos últimos anos, a sua fama e prestígio gastronómico cresceram ao ponto de se fazerem diversos festivais na região em torno do célebre arroz de lampreia, leitmotiv para outros eventos de carácter lúdico e cultural, durante a época alta do seu consumo por excelência: Janeiro-Maio.

Além desta forma bem conhecida e apreciada nas nossas Beiras exista outra variante, a lampreia à bordalesa guisada, cujo nome deriva de Bordéus e que é servida, especialmente, no Minho.

O que talvez poucos saibam é que a lampreia da nossa região, em pleno séc. XVII, já se assumia como iguaria ou prato gourmet, de características bem diversas da que chegou. Um importante motor económico-social, cujas referências se retiram dos livros da Receita e Despesa da Câmara Municipal de Coimbra onde assentam para a posteridade os pormenores dessa outra forma, quase esquecida, de preparar a lampreia. Vamos por partes:
- As lampreias eram adquiridas pelo município de Coimbra no Rio Mondego, entregando-se a um mester a gestão do seu apanho e confecção.    Em 1608, por exemplo, compraram-se 75 lampreias por 11.720 reis ascendendo o custo total a 13.040 reis após preparação das mesmas para consumo.
- As lampreias eram assadas no forno, envoltas em azeite, cravo, pimenta, gengibre e canela, segundo o saber e experiência de uma especialista no amanho e de uma forneira na selecção e colocação da lenha.
- Depois de assadas eram cortadas em quartos, sendo enviadas para a Corte de Lisboa e entregues ao Escrivão do Rei, que as repartia por diverso pessoal do Paço Régio, como forma de pagar aos Desembargadores os serviços e favores prestados à cidade, designadamente, no despacho de petições.

Eram, realmente, outros tempos, em que Coimbra conseguia ter poder de decisão e conquistar os governantes nas causas de interesse público, duma forma fácil e legítima: pelo estômago e barriga! Agora nem com arrufadas, barrigas de freira, crúzios e mesmo leitão, a coisa lá vai…

No antigo arquivo camarário de Coimbra podemos encontrar mais informações adicionais sobre este particular negócio de âmbito familiar mas inserido em toda a sua plenitude na actividade municipal: locais em que a lampreia era apanhada, usos e costumes, instrumentos utilizados, famílias que se ocupavam do negócio, evolução do preço por lampreia, custo e doses dos produtos.

É, também, muito provável que em arquivos camarários vizinhos, como sejam os de Penacova ou Montemor-o-Velho se encontrem informações valiosas complementares, que no conjunto conviria rentabilizar, através de mais recolhas documentais e algumas experiências laboratoriais.

Trata-se de um caso raro em que património material e imaterial se conjuga na perfeição, capaz de oferecer à restauração e gastronomia regional uma mais-valia que por certo a todos deixaria satisfeitos. Resta estudá-la e potenciá-la. Eu, já despi o casaco e tenho as mangas da camisa arregaçadas, alistando-me, desde já, no rol dos ajudantes de campo.

João PInho - Historiador/Investigador


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