MEMÓRIA - Entre cantigas e sem canseiras, recordou-se o brio das lavadeiras - PENACOVA ACTUAL
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7 de agosto de 2016

MEMÓRIA - Entre cantigas e sem canseiras, recordou-se o brio das lavadeiras


«Quem quiser pode vir para aqui esfregar», desafiou Isabel Batista. Saia comprida já molhada, lenço na cabeça e avental colocado, os pés na água do Mondego a amenizar uma tarde tórrida, batia com a roupa na pedra, esfregava e voltava a passar no rio que corre limpo na praia fluvial de Palheiros e Zorro.

A presidente do Rancho Folclórico Rosas do Mondego, que tantas vezes ajudou a mãe na tarefa de lavar a roupa, vestiu ontem a pele de lavadeira do Mondego e recordou esses tempos. Ela e outras, de diferentes gerações, lavadeiras ou filhas de lavadeiras, já que era essa a principal ocupação das mulheres de Palheiros, Carvalhosas, Vale de Canas, Torres, Misarela, Casal e outras aldeias ali à volta: «lavar roupa para as casas das senhoras da cidade, de Inverno ou Verão».

De máquinas fotográficas a disparar, alguns dos que assistiam ontem à recriação da barrela até conhecem a tradição do lavar de roupa no rio, mas ignoram as técnicas - usar cinza ou borralho para branquear a roupa colocada numa estrutura de madeira, ferver a água com restos de sabão para lhe deitar por cima, por exemplo - e os objectos, como o caniço para a barrela. «Para que servia o pau», perguntava uma senhora que se voluntariou para a experiência de lavar. «Era para bater os cobertores», respondeu uma das lavadeiras. Pois, «matava-se as nódoas à paulada», retorquiu a espectadora, entrando no espírito de brincadeira que ligava as lavadeiras e os homens que vieram, como antigamente, dar uma (pouca) ajuda.

«E dormem naquelas barraquitas?», continuou outra pessoa. Correcção, «são apartamentos de luxo», como é de luxo a ementa, «batatas assadas na areia com bacalhau, sopas fervidas», que sabem aos bons velhos tempos de trabalho mas também de convívio e amizade.

Maria Augusta foi lavadeira com carteira profissional e tudo

Outra voluntária pede mais sabão. «Olhe que as lavadeiras eram muito pobres e se estragavam o sabão os homens à noite ralhavam», explicava Isabel Batista. Virando-se para o “público”, desafiava: «e amanhã podem vir desfazer a barrela e ver as lavadeiras a tomar banho em combinação».

Neusa Vidal, de 37 anos, estava encantada com esta autêntica «aula de história», que permite «recordar e reviver a cultura da nossa região». «Hoje, a roupa põe-se na máquina de lavar e pouco se sabe de tudo o que este trabalho envolvia». A amiga, Isabel Loureiro, de 43 anos, ainda lavou bastante roupa com a mãe, «em poceiros» e lembra-se de pormenores como as «batatas à lavrador» que comiam ao almoço.

Dali de perto, mais concretamente das Carvalhosas, Maria Assunção diz que «cobertores, tapetes e carpetes eram estendidos na areia até quase não haver espaço para andar, só se podiam levar secos, por causa do seu peso».

Ontem estava calor. Hermínia Reis e Maria Augusta Rodrigues, das Rosas do Mondego, dizem que no Inverno as lavadeiras faziam «um “ingueiro”, uma vala no meio da areia, junto à margem do rio, para a água ser menos fria». E cantavam: «lavadeira do Mondego, lava a roupa sem canseira, cantando lindas canções também canta a ribaldeira...». A barrela termina hoje na praia fluvial da freguesia de Torres do Mondego, mas para o ano há-de repetir-se. A mostrar que as tradições não morrem esteve a pequena Mafalda, de sete anos, a lavar roupa com brio e empenho, como diz que a avó Otília lhe ensinou.

Andreia Trindade | Diário de Coimbra

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