OPINIÃO | A memória e o esquecimento - Acerca das celebrações das figuras históricas de Penacova

Lamentei que em 17 de Julho, dia do 150.º aniversário do nascimento de António José de Almeida, pouco o tivéssemos recordado, pelo menos numa expressão nacional. Além da sessão solene na Câmara, em que me pediram para intervir (só o fiz porque não gostaria que se reduzisse o acto a uma simples fórmula política) e os tradicionais ramos de flores depostos nas suas estátuas, pouco mais se fez. O que se manteve vivo foram os festejos do chamado “parque verde”, com música de alguma qualidade e outra “pimba”, como se costuma dizer. Mas a vida é assim: já diziam os latinos que o povo o que quer (se não se quiser criar cultura de outra forma, o que, felizmente, se tem feito também, de vez em quando, no nosso concelho) é panem et circenses, “pão e jogos de circo”, ou, dito de outra forma mais actual e vulgar, comes e bebes e saricoté, para esqucer as coisas importantes. Sou sempre de opinião que se deve esquecer em certas alturas o que nos preocupa e, por isso, gosto das festas populares deste nosso “querido mês de Agosto” (de Junho, de Julho, de Setembro…), desde que feitas à custa de quem as quer (todos os anos dou a minha contribuição para as festas de S. João em Figueira) e não do erário público.

Mas… já esquecera o esquecimento a que, de algum modo, António José de Almeida fora votado em data tão significativa quando, de novo, fui alertado para o facto através de um simples e-mail.


Um familiar, com quem em geral tenho pouco contacto, enviou-me duas fotos (que publico em anexo) que tirara durante uma “romagem” que fizera, com um grupo de amigos, à casa de António José de Almeida. Uma, do Restaurante do Vimieiro, onde almoçaram, em que (com a colaboração da Câmara de Penacova) se pretendeu recordar uma das “glórias do Concelho” e da freguesia de S. Pedro de Alva. Os meus parabéns aos proprietários, pelo facto de se lembrarem que a História faz parte da identidade dos povos, e obrigado por me terem nomeado — não fiz mais do que, numa visita que ali fiz, lhes ter recordado o Centenário. A outra, em que o meu familiar manifestava, através da foto, um grande pesar pela ruína a que chegara a casa de António José de Almeida, o que veio aumentar as minhas preocupações, que sei serem também as da Freguesia e do Município, que adquiriu o prédio.


Importa, pois, salvar a casa de um dos mais significativos presidentes da nossa República, a fim de a transformar numa casa-museu, como se fez com outras casas de políticos e escritores por esse país fora. No que diz respeito aos presidentes, a de Manuel de Arriaga na Horta, a de Bernardino Machado em Vila Nova de Famalicão (casa que nunca foi sua, mas que é um excelente memorial e centro de investigação) e a de Manuel Teixeira Gomes em Portimão.

Acrescento duas curiosidades, completando dados novos aos que já conhecia:

Recebi há dias as duas séries de selos que havia encomendado nos Correios de Penacova: 

Uma, que contém o selo de António José de Almeida (já surgira noutra série dos políticos da I República, editada há uns anos), e que apresenta também o do grande escritor Vergílio Ferreira e o do político, ensaísta e pintor Mário Dionísio, cujos centenários se celebram neste ano de 2016. Por isso se lhe chamou “Vultos da Cultura e da Política”. Poderia ter-se acrescentado o do meu mestre Professor Silva Dias, que contribuiu de forma exemplar para a mudança de paradigma da historiografia portuguesa. Também ele nasceu em 1916, no dia 9 de Fevereiro em Arcos de Valdevez.

A outra, a série comemorativa do Primeiro Voo Militar em Portugal, deu-me a conhecer que a sua celebração se verificou exactamente em 17 de Julho, o que vem acrescentar mais uma situação simbólica significativa à data do feriado de Penacova. Aqui vai o texto (que tomei a liberdade de adaptar e de adicionar algumas informações) que encontrei na Internet num blogue do filatelista Mário Paiva, baseado na pagela de apresentação da emissão filatélica, da autoria do Tenente-General Piloto Aviador António Carlos Mimoso e Carvalho, Presidente da Comissão Histórico-Cultural da Força Aérea:

Foi comemorado em 17 de Julho de 2016 em Vila Nova da Rainha, perto da Azambuja, o Centenário do Primeiro Voo Militar em Portugal, local onde foi construída a partir de 1914 a Escola Aeronáutica Militar. Este primeiro voo realizou-se com o monoplano Deperdussin equipado com um motor Gnome de 50 hp, e pilotado pelo Tenente José Barbosa dos Santos Leite (Telhado, Figueira de Lorvão, 21 de Março de 1884 – Alverca, 30 de Novembro de 1928), o primeiro militar português a obter o brevet, a 11 de Fevereiro de 1916, na Escola de Aviação de Chartres, em França. Este militar veio a falecer no dia 30 de Novembro de 1928, num acidente aéreo no Aeródromo de Alverca. Os CTT - Correios de Portugal homenagearam estes pioneiros da aviação militar, e todos os que ao longo destes últimos cem anos têm contribuído para a história e o desenvolvimento da Aviação Militar em Portugal, com uma emissão filatélica que foi posta a circular no dia 15 de Julho de 2016. É uma série de dois selos, de €0,47, que representa a aeronave Deperdussin, e o selo com o valor de €0,80 que mostra uma imagem do Tenente Santos Leite e a aeronave que pilotou. Há também a emissão de um bloco filatélico com um selo de €1,50, com a imagem da aeronave e do hangar de Vila Nova da Rainha. Todas as imagens foram cedidas pelo Arquivo Histórico da Força Aérea Portuguesa, e o trabalho gráfico desta emissão foi de Folk Design, sendo a impressão de BPost, da Bélgica. Inserido nas comemorações deste Centenário do 1º Voo Militar em Portugal, houve no dia 17 de Julho, domingo, um Posto Temporário de Correio no Museu Municipal da Azambuja, com o carimbo comemorativo. 
Já agora recordo ainda a importância de António José de Almeida na formação da Aviação Militar, pois foi sua a proposta nesse sentido apresentada em 24 de Junho de 1912, lida em 26 de Junho na Câmara dos Deputados e entregue à Comissão de Guerra e Marinha.

Sugeria, por isso, neste ano do centenário, que a freguesia de Figueira de Lorvão atribuísse o nome de uma rua em Telhado ao depois Major Santos Leite, o que constatei não haver nessa aldeia, nem em Penacova, embora exista aqui um conhecido memorial anexo à lápide comemorativa dos Mortos da Grande Guerra, na pérgola de Raul Lino.

Não esqueçamos, pois, as figuras históricas de Penacova, que são também nacionais. Felizmente, graças a Álvaro Coimbra e à família do pintor, soube lembrar-se a personalidade notável e de uma simplicidade tocante que foi Martins da Costa, mas não se esqueça, por favor, outras figuras, como António José de Almeida e Santos Leite. Os Correios nacionais não os esqueceram. Será possível que Penacova omita a memória dos seus filhos — destes… e certamente de outros de que não se fala, mas que devem também ser recordados? Como mais ou menos disse o presidente da Assembleia Municipal Pedro Coimbra, na sessão de 17 de Julho, lembrando talvez uma afirmação do escritor argentino de origem portuguesa Jorge Luís Borges, uma Comunidade não existe sem História. Acrescento a minha reflexão: ao contrário do que se pensa, a História não é o passado (o “facto” já feito e já morto), mas o homem no tempo e no espaço, seja no Passado, como no Presente ou no Futuro, seja em Penacova, como em Portugal ou no Mundo. 

Mas será que — evocando outra vez Borges — quando escrevemos palavras como estas estamos apenas a escrever na areia? Espero bem que não.

Figueira de Lorvão, 22 de Agosto de 2016

Luís Reis Torgal 



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