OPINIÃO | A Era da Histeria: a Decadência da Comunicação Social

Proponho ao leitor um breve exercício: consegue estimar o tempo de antena que teve Pedro Dias desde os terríveis acontecimentos que lhe conferiram infame celebridade? Hoje já conhecido como Pedro Semanas, o presumível assassino tem tido honras de jornal da manhã, da hora de almoço e da noite. A sua personalidade, a sua família e as suas presumíveis acções são diariamente “dissecadas” por vários especialistas nos programas da manhã e a investigação é um reality show sensacionalista, actualizado quase ao minuto.

Peço agora ao leitor mais um pequeno esforço: quando foi a última vez que obteve algum dado concreto acerca do dito caso? Até que ponto podemos confiar que foi aquele o agressor? Afinal, o que é que sabemos realmente para além das pessoas que perderam a vida e que foram feridas?

É a isto que vemos reduzida a televisão nacional: uma busca incessante pelo sensacionalismo, o factor choque e a tragédia alheia. Se houver sangue ainda melhor. Todos os dias tenho a “felicidade” de ter uns minutos de tv no meu trabalho, à hora de almoço. E todos os dias a história é um dos seguintes temas, independentemente do canal em sintonia: assassínios brutais, assaltos violentos, histórias de violações e outros episódios de violência sexual, et cetera.

Dou por mim a perguntar: que tipo de sociedade vive neste mundo de terror, violência e prémios atribuídos por telefone?

O problema é mais grave quanto maior for o tempo de exposição ao pequeno ecrã.
Os programas de futebol, que ocupam um período de tempo exacerbado, até se poderiam justificar atendendo à popularidade do desporto. O problema é que de futebol têm muito pouco. Quando penso em programas desportivos, idealizo a mostra de jogadas, os destaques a jogadores nacionais no estrangeiro, a apresentação de jovens talentos, análises tácticas, enfim, bola a rolar num campo relvado. O que temos em vez disso? Trios de indivíduos com ar de quem prefere Bolas de Berlim a tentar causar AVC’s uns aos outros. As pessoas que vêm estes programas, especialmente os mais jovens, poderão ser tentados a acreditar que aquilo são comportamentos normais ou perfeitamente justificáveis quando se está a tentar provar um ponto. Quanto mais não seja pela repetição até à exaustão deste tipo de conteúdos.

O outro grande tema que domina a televisão é a política. Este é, para mim, o caso mais grave. Nada impede que determinados meios de comunicação tenham agendas políticas mais ou menos assumidas - e ainda bem que assim é, porque é assim que funciona a democracia - mas a deontologia a que estão sujeitos os meios de comunicação exige uma declaração de interesses e uma separação rigorosa entre notícia e opinião.

A democracia depende de uma sociedade civil educada, bem informada e a cujo acesso à informação seja fácil. Quando o tempo de antena dado a comentadores ou dirigentes de uma determinada cor política não segue um nexo de equidade, quando não existe o direito ao contraditório ou quando um pivot ou jornalista faz leituras políticas de um determinado tema, diluindo-se a distinção entre notícia e opinião, aquilo que se está a negar ao espectador é, no fundo, liberdade.


Rui Sancho

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