OPINIÃO - O elogio do adversário - PENACOVA ACTUAL

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18 de janeiro de 2017

OPINIÃO - O elogio do adversário

As eleições presidenciais de 2016 foram um momento marcante na minha vida política: pela primeira vez apoiei um candidato à Presidência da República. Esse candidato não foi Marcelo Rebelo de Sousa. Hoje, quase um ano depois da sua eleição tenho de dar a mão à palmatória: Marcelo está a revelar-se um excelente PR.

É fácil gostar-se de Marcelo e esse foi um dos segredos para a sua eleição. Teve durante muito tempo um espaço privilegiado de comentário na TV e, por conseguinte, de proximidade com o eleitorado e usou-o para construir a imagem de professor, intelectual e político modelo, com uma ideologia vincada, mas pouco dado a dogmas. Esta foi a principal razão pela qual quase nem precisou de fazer campanha: toda a gente conhece Marcelo. Penso ser seguro afirmar que aqueles que temiam uma metamorfose negativa tiveram uma agradável surpresa.

Marcelo adoptou um estilo presidencial completamente oposto ao de Cavaco Silva. Leve, jovial e com uma energia contagiante, percorre o país de lés-a-lés visitando entidades públicas e privadas, quebrando o protocolo quando ele não se adequa e adaptando o seu comportamento ao ambiente em redor. Gosto desta postura: o Presidente da República deve ter tanto contacto com o país quanto possível e não ser um bibelot no Palácio de Belém.  

Se Portugal hoje atravessa um momento de paz política, em muito o deve a Marcelo. Basta recordar o seu antecessor para relembrar a instabilidade que o PR pode criar se assim o desejar. E todos sabemos que os “mercados” abominam a instabilidade política. Com a actual solução governativa, uma postura mais cavaquista rapidamente derrubaria o governo, mas Marcelo fez aquilo que disse que ia fazer: tornou-se o Presidente de todos os portugueses. Um cliché, sem dúvida, mas uma realidade. E para isso bastou-lhe dar uma oportunidade ao Governo de mostrar que as suas políticas funcionam. Marcelo pode ser de direita, mas é pragmático e sabe que há vários caminhos para o mesmo fim.

Esta postura tem criado algum mal-estar no PSD. Não só pela cumplicidade que Marcelo tem para com o executivo de António Costa, mas também por não se abster de criticar a governação de Pedro Passos Coelho, o que já provocou alguns comentários mais azedos motivados por diferenças ideológicas vincadas.

Marcelo Rebelo de Sousa é um social-democrata liberal: defende a descentralização, a redução do “peso” e da despesa do Estado e a criação de condições fiscais propícias ao investimento externo, mas é fiel aos princípios do Estado Social. Pedro Passos Coelho é um neoliberal: uma ideologia radicalmente favorável ao capitalismo do “laissez-faire”, às privatizações, ao estado mínimo e à austeridade fiscal. Embora provenientes da mesma família política, Marcelo manteve sempre uma ideia da economia sujeita ao poder político enquanto que PPC defende um Estado que intervenha tão pouco quanto possível na vida económica do país.

Nunca é bom sinal quando uma corrente de pensamento se afirma como a única possível ou quando os seus seguidores afirmam abertamente que “não há alternativa”. O autoritarismo intelectual é inimigo da democracia e a política faz-se de consensos. E Marcelo sabe disso.


Rui Sancho


P.s.: Este artigo foi redigido ainda antes do desaparecimento de Mário Soares. Como Socialista e Democrata, não posso abster-me de manifestar um profundo pesar. Se hoje a minha geração se entrega ao wanderlust e vê o mundo como o seu quintal, muito se deve à visão progressista deste Homem. A ele e à sua obra deixo os meus sinceros agradecimentos.