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12 de setembro de 2017

OPINIÃO - À Mesa com Portugal

O sol ainda brilha forte, o calor ainda aperta e o apelo da praia ainda é uma ameaça séria a quem tem que se concentrar na rotina do trabalho. Mas o calendário escolar cada vez mais europeu traz-nos à terra e obriga-nos a pensar na escola. Do tempo em que, animados, regressávamos à escola até aos dias de hoje vai uma distância grande. Apetece dizer que passámos da pré-história para as crianças civilizadas. De fato, Portugal evolui nos últimos anos pela aposta, ainda que com alguns sobressaltos, na educação. O alargamento e a atualização dos programas permitiram, sem dúvida, que crianças e jovens adquirissem conhecimentos muito úteis para a vida, quer pessoal, quer profissional. É delicioso ouvir as crianças darem explicações sobre os fenómenos que os adultos não conhecem nem conseguem explicar, ou então, saírem-se com um discurso pleno de sapiência sobre uma caraterística de um qualquer animal.

Não querendo praticar um discurso que vá atrás da ideia “a gastronomia está na moda” pergunto, no entanto, temos literacia gastronómica? Ou direi para começar, temos literacia alimentar? Sendo a alimentação um pilar estrutural da nossa vida, não só pelas emoções que nos provoca, mas porque é essencial para a sobrevivência e determinante para uma existência saudável, será que as crianças não deveriam saber o que comem? Por exemplo de que é feito o fiambre e as salsichas de que tanto gostam?

Podemos começar pela saúde. E se em casa, muitas vezes, não há tempo para falar destas questões, importa, na escola, mostrar aos miúdos que a alimentação que eles desejam fazer pode trazer riscos para o futuro. Até porque se explicarmos de forma esclarecida e sem dramas ou exageros a mensagem tem o efeito pretendido. Há que explicar a diferença entre alimentos simples e alimentos processados, falar dos ingredientes que integram a composição de uma simples fatia de pão e fazê-los perceber que não é mais fofo e mais branco que faz melhor. Dizer-lhes que muitos dos alimentos que consoladamente comem têm muito açúcar e podem no futuro resultar em doenças horríveis como a diabetes. Mais fácil do que dizer “NÃO” é mais útil explicar as razões. Até porque subestimar a inteligência destas pequenas criaturas é inviabilizar uma relação de comunicação próspera entre adultos e crianças.

Mas, atrevo-me, a ir além da saúde. Por exemplo, porque é que as crianças não comem peixe e até nas escolas a solução são pequenas fatias processadas de qualquer coisa que os miúdos parecem adorar pois de peixe devem ter pouco? Porque não lhes mostrar tudo o que mar nos pode dar? O que é peixe? É “ahhh” em sinal de desespero ou um mundo a descobrir onde há peixes de todos os tamanhos, feitios, cores, alguns deles autênticas figuras ótimas para uma qualquer animação de tão patuscos que são. Atrás dessa diversidade está um mundo de sabores para descobrir e então bem cozinhado ainda melhor… Passado em farinha e frito em azeite, diga-se uma das mais antigas e mais tradicionais formas de comer peixe na nossa costa, grelhado apenas salpicado pelo bom sal das nossas marinhas, cozido no ponto certo e temperado com um bom fio de azeite, assado com os temperos que o transformam.

Fico-me pelo mar, ou neste caso, no conceito indistinto do peixe. Por uma questão de cultura, não ficava mal a escola dar alguma atenção à necessidade de uma literacia alimentar e dar conhecimento sobre a diversidade de espécies da nossa costa. Assim, as crianças aprenderiam a gostar daquilo que tantos séculos alimentou os nossos antepassados e que, por isso, é herança gastronómica por excelência. Vamos conhecer o nosso mar? Com aquilo que iríamos aprender com os mais novos, até nós, adultos, faríamos outra figura ao ler uma ementa de um restaurante do litoral…

Olga Cavaleiro é Presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas e escreve habitualmente para o Diário As Beiras