MEDRONHALVA - A chuva chegou e a terra já está a brotar - PENACOVA ACTUAL
PUB

ÚLTIMAS

Post Top Ad

23 de novembro de 2017

MEDRONHALVA - A chuva chegou e a terra já está a brotar

Em São Pedro de Alva, Penacova, no único medronhal certificado do mundo começam agora a nascer os primeiros rebentos. O fruto só mesmo daqui a três anos. Quem visitar a Praia Fluvial do Vimieiro, com o seu turismo rural e restaurante, verá como uma espécie autóctone e espontânea pode fazer tanto por uma região.
A chuva forte da noite passada trouxe novamente o cheiro da madeira queimada. Quando acordou, Américo Diniz deu logo conta. As lembranças vieram de novo à tona só porque a água, finalmente, desceu à terra. Ainda há pouco mais de um mês, o mecânico e filho do antigo moleiro da Praia Fluvial do Vimieiro andou sozinho, mais a mulher, a combater o fogo que teimou em vir desde o sopé da Serra da Lousã até ao sopé da Serra do Caramulo, destruindo perto de 80 quilómetros. Ao lado, n’O Medronheiro, uma casa rústica de alojamento local, também Carlos Fonseca andou com a mangueira a afastar as labaredas com dezenas de metros de altura. São dois andares, preparados para receber até cinco pessoas, sendo o ideal para um casal com dois filhos. Uma casinha de pedra com lareira no piso de baixo e salamandra no andar de cima, onde ficam os quartos com o teto forrado de cortiça. A kitchenette completa torna a casa autónoma, quase não sendo preciso sair de lá.
Depois dos fogos de Pedrógão Grande, em junho, nunca pensou que o mesmo fosse ali acontecer. Ainda três dias antes, a 12 de outubro, Carlos tinha terminado o relatório da Comissão Técnica Independente, criada pela Assembleia da República, no qual 12 especialistas analisaram a situação.

O biólogo, professor e investigador da Universidade de Aveiro, 43 anos, foi um dos técnicos escolhidos pelo Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas. Em parte por ser especializado em gestão florestal e conservação de recursos silvestres, mas o facto de conhecer o território ao pormenor e de ter uma relação sentimental com a região também foram tidas em conta.

APROVEITAR O MATERIAL QUEIMADO
Carlos Fonseca é dos poucos a tratar da terra. “Não vejo ninguém com uma motosserra a limpar os terrenos. O abandono é garantido, essa é a grande ameaça”, lamenta. Logo após os incêndios, com a ajuda de amigos e voluntários puseram-se a limpar o medronhal certificado, 20 hectares na envolvente de toda a Praia Fluvial do Vimieiro, este verão pela primeira vez distinguida com a Bandeira Azul o que levou a dias de grandes enchentes.

O material lenhoso queimado serviu para fazer barreiras, pois o declive muito acentuado do terreno era propício à queda de cinzas e matéria orgânica quando começasse a chover. Essas estão também sustentadas por palha (mulching), uma técnica usada na proteção e estabilização dos solos.

Há cinco dias, da terra começaram a brotar pequeninas folhas verdes, encostadas às hastes dos medronheiros que não arderam, mas que devido às temperaturas muito elevadas também ficaram queimados. Em 2013, Carlos Fonseca, que ficou com uma das quatro casas da praia fluvial, resolveu tornar a terra mais rentável, pensando nos aspetos ambientais, sociais e económicos. Sendo o medronho uma planta autóctone, porque não plantar dez hectares e recuperar outros dez onde nasce de forma espontânea, nos socalcos onde já houve vinha.

SEM MÁQUINAS, SÓ À MÃO
Nessa altura, pegou em 120 quilos de fruto maduro (a que chamam morangueiro), de vários tamanhos, e num viveiro usou para germinar a semente. O resultado foram 30 mil pés de medronheiro. Depois de os ter plantado, em janeiro de 2015, um ano que também foi seco, teve uma taxa de mortalidade de cerca de 20 por cento, o que para uma espécie replantada nesta situação é bastante baixa.

Neste medronhal não há mecanização, e este ano, já estava a evoluir para o modo de produção biológico. Além de ser vendido como fruto fresco, o medronho serviria também para fazer aguardente (até já tinham um rótulo para a garrafa), licores e compotas.

Agora são precisos mais de três anos para nos medronheiros espontâneos voltar a haver fruto. Nas várias toiças que ficaram, as raízes à superfície, em breve vão brotar novas pernadas, depois é ir fazendo a poda. Três anos será o mesmo tempo que a cinza e a matéria orgânica levarão para desaparecer. Por enquanto, o contraste de cores ainda é muito forte, com o preto a vencer o verde.

A descer para a praia fluvial, à nossa esquerda fica a Ribeira do Vale da Cereja – a única réstia de verde por esta zona. É preciso deixar a Natureza fazer o seu trabalho, naturalmente.


Vamos ter uma redação itinerante no Centro do país durante todo o mês de Novembro, para ver, ouvir e reportar. Diariamente, vamos contar os casos de quem perdeu tudo, mas também as histórias inspiradoras da recuperação. Queremos mostrar os esforços destas comunidades para se levantarem das cinzas e dar voz às pessoas que se estão a mobilizar para ajudar. Olhar o outro lado do drama, mostrar a solidariedade e o lado humano de uma tragédia. Para que o Centro de Portugal não fique esquecido. Porque grande jornalismo e grandes causas fazem parte do nosso ADN.

Texto de Sónia Calheiros e fotos de Rui Duarte Silva


Sem comentários:

Enviar um comentário

Leia as regras:

1 - Todos os comentários são lidos e tendencialmente moderados.
2 - Os comentários ofensivos não serão publicados.
3 - Os comentários apenas refletem a opinião dos seus autores.