ENTREVISTA - Carlos Fonseca fala ao Diário de Aveiro sobre a sua experiência (vivida) com os incêndios Penacova Actual PENACOVA ACTUAL - Jornal de Penacova

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ENTREVISTA - Carlos Fonseca fala ao Diário de Aveiro sobre a sua experiência (vivida) com os incêndios


Carlos Fonseca, professor da Universidade de Aveiro (UA), integrou, por indicação do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, a Comissão Técnica Independente (CTI) que elaborou o relatório sobre os fogos que eclodiram em Pedrógão Grande e Góis.

Nos últimos anos tem apostado na exploração de um medronhal de 21 hectares no concelho de Penacova, dizimado pelo incêndio de 15 de Outubro. Era o primeiro medronhal de produção certificado do mundo e neste Outono pretendia colher os primeiros medronhos destinados ao mercado de frutos frescos.

Entrevistado pelo jornalista Rui Cunha, do Diário de Aveiro, o docente da UA fala da sua experiência como proprietário florestal, garantindo que “é para continuar”, apesar do revés. E dá também a sua opinião sobre a política que defende para a floresta e o território, temendo a falta de uma visão de longo prazo. “Está-se a tapar o buraco no imediato mas não a olhar para uma estratégia de futuro”, avisa.

Diário de Aveiro: Pegando no seu caso. Apostou na plantação de medronheiros, cumprindo todas as regras de segurança e prevenção. E no entanto ardeu tudo. Fica uma sensação de inevitabilidade. É assim?

Carlos Fonseca: A sensação foi de impotência no momento e de pôr em causa aquilo que achamos que é o mais correcto, mas que perante uma situação excepcional não resultou. Apostámos numa cultura autóctone, numa planta mediterrânica, sendo que a nossa estratégia foi assente em dois caminhos: recuperar os medronhais que já existiam e, na outra metade da área, apostar em plantações ordenadas. Estes pomares de medronheiro eram parcelas limpas, com investimento grande em prevenção anual, com espaçamento das plantas, etc. O problema é que o incêndio chegou com muita força e, por outro lado, havia muito combustível que rodeava os nossos terrenos – e por isso a prevenção não funcionou. Todo o medronhal que estava na bordadura foi directamente afectado e ardeu e os núcleos mais centrais acabaram por morrer mais pelo calor do que pelo lume. Alguns, cerca de 30 dias após o incêndio, começaram a rebentar novamente, o que nos deixou mais esperançosos – tanto mais que naquela região, onde o eucalipto predomina, não vimos qualquer eucalipto a rebentar, ou qualquer mimosa… O nosso projecto funcionava como um exemplo naquilo que é uma estratégia para o território, diferenciadora, demonstrando que é possível ter rentabilidade sem termos de ir obrigatoriamente para aquilo que parece inevitável, que é o eucalipto.

DA - Mas se até um projecto exemplar como o seu acabou destruído, isso significa que pouco há a fazer?

CF - Quando, poucos dias depois do incêndio, reflectimos sobre o assunto esse foi um dos pensamentos que nos surgiu. Valerá a pena continuar a apostar nesta cultura? A aposta no medronheiro também é uma questão de acreditar que esta cultura tem futuro, e com uma boa gestão conseguimos que produza de forma a termos rentabilidade, além de todos os benefícios em termos de biodiversidade, do solo, de erosão, de prevenção dos incêndios – pelo menos dos incêndios convencionais, o que não foi o caso. No mundo rural temos a clara percepção que o nosso grande inimigo é o fogo – há um homem lá na aldeia que lhe chama a foice vermelha.

DA - Sente que os poderes políticos, por um lado, e as populações, por outro, estão agora genuinamente empenhados em mudar alguma coisa?

CF - Estive muito próximo do poder político… Há uma grande expectativa sobre como é que os políticos estão a encarar estas situações e qual vai ser a reac- ção. A reacção dos políticos é aquela que é conhecida, com produção de resoluções, muito baseadas nos relatórios, nomeadamente o nosso da CTI, e portanto houve uma resposta rápida, pelo menos no que diz respeito ao imediato. Depois do incêndio de Pedrógão estava com uma grande expectativa e perfeitamente convencido de que tínhamos condições para fazer uma grande mudança. Poucos dias depois acontecem os incêndios de Outubro, que me afectaram directamente, e passei de analista e técnico para proprietário afectado. E aí, quando sentimos na pele, a nossa própria visão acaba por mudar. O que sinto agora, enquanto alguém que vive no mundo rural e foi lesado, é que a resposta é extremamente lenta – a floresta e a natureza vão responder muito mais rapidamente do que os políticos e do que as nossas leis. Esta lentidão verifica-se imediatamente no pós-incêndio, desde o apoio às pessoas, financeiro ou psicológico… As pessoas estão devastadas e ainda estamos todos chocados com o que aconteceu. E é preciso também encontrar resposta para o que sobra: a madeira, a cinza no solo… Há esta lentidão na resposta, e o que eu noto é que as pessoas fazem por elas próprias e com os seus próprios meios. Em relação ao nosso projecto, é para continuar, não vamos desistir. Sempre tive esta sensação: se nós desistíssemos tendo um projecto estruturado, com princípio, meio e fim, diria que mais gente no território iria desistir. O nosso projecto é visto cada vez mais como um exemplo e uma alternativa e não ganharíamos nada com a desistência – só iríamos contribuir para um maior abandono do território. Portanto estamos a trabalhar também como exemplo, para demonstrar às pessoas que não precisamos de estar à espera dos milhões… Obviamente que se houver algum apoio, tanto melhor, mas não podemos estar à espera do diálogo que devia ser feito no imediato.

DA - Não parece muito optimista em relação à actuação do Governo...

CF - Diria que há uma resposta mais imediata, mas não sinto que haja uma política de fundo para aquilo que é a essência de tudo o resto, que é a falta de pessoas no interior. Paralelamente a estes programas de resposta imediata, que são fundamentais – mas que, ainda assim, para determinados aspectos não é assim tão imediata –, há claramente uma falta de visão e até de compromisso sobre o que querem para o interior, para as aldeias, para as populações... Está-se a tapar o buraco no imediato mas não a olhar para uma estratégia de futuro, o que passa por dar melhores condições de vida no interior para que as pessoas que lá estão não saiam e para que seja mais atractivo para quem queira ir para lá. Isso traria grandes ganhos, mas não vejo grandes sinais. Sem pessoas, o território fica mais abandonado e à mercê de mais catástrofes e de situações de desequilíbrio.

DA - Seria necessário criar um regime de incentivos, por exemplo em termos fiscais?

CF - Sim, mas incentivos integrados. Tem de haver a criação de infra-estruturas que torne o interior mais atractivo. A atractividade do interior só por si é natural – nos dias que correm e no futuro as pessoas vão querer mais estar em contacto com a natureza… Mas têm de ter comodidades. Não pode haver um país a duas ou três velocidades, de forma a assegurar coesão territorial.

DA - Quais são as medidas que é mesmo necessário executar para que tudo não fique na mesma?

CF - Tudo passa muito por criar condições de empregabilidade no interior – as pessoas não vão apenas pelo ar puro, as plantas e os animais, precisam de trabalho. Se, associado a isso, houver infra-estruturas que façam com que as pessoas se sintam confortáveis, aí seria possível inverter a tendência de desumanização dos territórios do interior. Se formos a ver, grande parte do país é rural, porque mesmo aqueles que vivem no litoral e nas grandes cidades têm origem na ruralidade e há sempre a ideia de voltarem, pelo menos de uma boa parte, e a agricultura e a floresta e outros recursos endógenos podem ter um papel importante.

DA - Na ressaca dos incêndios disse que “há agora muita gente a querer desfazer-se dos terrenos”. Isso pode ser um problema ou uma oportunidade?

CF - Uma pessoa de 40 ou 50 anos, perante uma catástrofe destas, segue em frente porque vê umas décadas à sua frente e acredita. Mas as pessoas que vivem de facto lá, diariamente, e que têm 60 ou 70 anos, já não têm essa perspectiva de futuro. Perante a impotência que sentem, pensam em desistir e em desfazer-se das suas propriedades. Ou seja: estamos numa situação em que em princípio o grau de abandono irá aumentar. Mas há estratégias que passam por exemplo pela constituição de sociedades ou empresas que possam gerir territórios, um pouco à semelhança das Zonas de Intervenção Florestal, embora muitas delas existam no papel e precisem de ser passadas à prática. Este é um sistema de gestão integrada em que o proprietário não perde a titularidade do terreno mas em que a gestão passa a ser feita por outra entidade, em troca de um rendimento. Sob o ponto de vista teórico é extraordinário, não tenho dúvida que é por aqui o caminho, mas do ponto de vista prático não funciona assim tão bem, porque existe uma questão de cultura e de mentalidade dos portugueses – para lá chegarmos precisamos de mais umas gerações, não é numa geração que conseguimos esta grande mudança de mentalidade.

DA - As pessoas são muito apegadas às suas terras…

CF - Muito. As pessoas são muito agarradas ao terreno e àquilo que lá tem. De resto, a compra de terrenos também é um problema, embora a legislação em princípio vá mudar. Não faz sentido a grande carga fiscal que continuamos a ter – um terreno pequeno, de 1.500 metros quadrados, pode custar à volta de 300 ou 400 euros, mas depois na Conservatória paga-se quase outro tanto pelos registos. Isto não é incentivo nenhum para a compra e importante ao nível do rendimento das comunidades rurais… A questão é a forma como é plantado, os locais e como é gerido, ou como não é gerido. Principalmente os pequenos proprietários não fazem gestão – têm uma parcela de 1.000 ou 2.000 metros quadrados, fazem o eucaliptal, algumas vezes sem projecto, e a perspectiva destas pessoas é rezar para que não passe um incêndio nos anos seguintes e que passado esse tempo possam lá ir buscar rendimento; não há perspectiva de fazerem limpeza de dois em dois anos ou de fazerem desbastes, etc. Encontramos essa gestão nas áreas de eucaliptal das grandes empresas de pasta de papel mas no minifúndio isso não acontece. Temos de olhar para o território e perceber que há zonas em que o eucalipto não faz qualquer sentido e outras em que até tem boa produtividade e se pode justificar uma espécie de crescimento rápido, porque também temos de olhar para o rendimento de quem lá vive, e o eucalipto pode ser uma alternativa. Mas uma alternativa integrada com outras que o território pode oferecer, como manchas de medronhal, de pinhal, de carvalhos ou de sobreiros, e com agricultura pelo meio. | para o emparcelamento, porque só com áreas superiores é que podemos perspectivar algum tipo de gestão, também na prevenção dos incêndios.

DA - Sempre que há incêndios vem à baila a questão dos eucaliptos. Qual a sua opinião em relação a esta espécie?

CF - O eucalipto pode fazer sentido nalguns locais adequados – não tenho uma opinião contra ele, pode ter um papel muito importante ao nível do rendimento das comunidades rurais… A questão é a forma como é plantado, os locais e como é gerido, ou como não é gerido. Principalmente os pequenos proprietários não fazem gestão – têm uma parcela de 1.000 ou 2.000 metros quadrados, fazem o eucaliptal, algumas vezes sem projecto, e a perspectiva destas pessoas é rezar para que não passe um incêndio nos anos seguintes e que passado esse tempo possam lá ir buscar rendimento; não há perspectiva de fazerem limpeza de dois em dois anos ou de fazerem desbastes, etc. Encontramos essa gestão nas áreas de eucaliptal das grandes empresas de pasta de papel mas no minifúndio isso não acontece. Temos de olhar para o território e perceber que há zonas em que o eucalipto não faz qualquer sentido e outras em que até tem boa produtividade e se pode justificar uma espécie de crescimento rápido, porque também temos de olhar para o rendimento de quem lá vive, e o eucalipto pode ser uma alternativa. Mas uma alternativa integrada com outras que o território pode oferecer, como manchas de medronhal, de pinhal, de carvalhos ou de sobreiros, e com agricultura pelo meio.



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