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OPINIÃO - A nossa Lampreia não irá de mota

Estamos, aqui em Penacova,  ainda a tentar perceber bem o que é que leva um País pequeno, sem grandes recursos (como se tem visto com a incapacidade da prevenção das desgraças recentes) a desbaratar o pouco que se tem, construindo agora, para destruir logo a seguir.

Efectivamente -  sem se pôr aqui  em causa a necessidade de se resolver o problema do assoreamento do Rio Mondego, em Coimbra, se é que ele existe - não se pode é tolerar, num Estado Democrático e de Direito, que uma obra como a que se colocou em curso rápido, à socapa, digamos assim, não tenha sido alvo da discussão pública que se impunha – e impõe!

Tudo nos surge feito à pressa, muito provavelmente pondo em causa interesses protegidos de espécies migradoras do nosso rio comum ...

Tudo está, ainda, em segredo mais ou menos cúmplice, uma vez que, tanto quanto sabemos, nenhum aviso – muito menos técnico ou informação - foi dado cá para cima, para montante da alarvidade, nem para quem nos tem acompanhado na defesa da preservação das nossas espécies endógenas.

Tudo terá efeitos nefastos no desenvolvimento das larvas ali depositadas – em frente do Parque, em Coimbra - esperando as correntes para poderem irem para o mar, reiniciando mais um ciclo natural.

Tudo poderá, pois, constituir desastre ambiental.

Certo é que estão postos em causa, duma assentada, tanto os investimentos recentes integrados na temática (nomeadamente no açude ponte) – que demoraram o enorme tempo de uma geração – como a regularização em curso da retoma da normalidade da subida até às margens de Penacova das espécies  que aqui têm maternidade acolhedora, com realce para a Lampreia que por cá constitui ex libris do desenvolvimento local.

Aliás, por falar da nossa espécie principal – afinal peixe, que não ciclóstomo – bom é lembrar que a “guerra” contra a permanência da dita nos Rios Mondego e Alva e Dão já começou com a construção das Barragens do Coiço e da Aguieira, ainda antes da chegada da democracia.

E continuou com a dita regularização do Baixo Mondego e com a construção inusitada dessa obra de engenharia atrasada no Açude Ponte.

Tendo sido acompanhada de outras actividades democráticas, mas à margem da lei, catalogadas por quem sabe como empecilhos evitáveis.

A regularização subsequente – donde se realça o magnífico trabalho desenvolvido pelo Mare – está a ser paga por todos os portugueses e assentou na regularização da subida através da construção de “escadas de peixe” cujo cimento ainda está fresco.
Donde se pode concluir que, à boa maneira dos pacóvios, se projecta, se contrói e, logo de seguida, se destrói!

Pelo caminho vão ficando os nossos milhões ou melhor dito os milhões que não temos.

Ah, já me esquecia de falar da mini-hídrica do Caneiro, que foi projectada também à socapa, com a finalidade vergonhosa de contribuir para salvar o País da banca rota e que foi esmagada, sem ter nascido, com a mobilização dos Penacovenses – e não só.

A tal mini-hídrica era concursada a uma tal “ Mota” qualquer coisa, de não boa memória para todos nós que tivemos que lutar contra os seus interesses.

A obra actual, feita à pressa, não se sabendo bem em que condições, também está, pelos vistos, entregue à mesma “Mota”.

Nem queremos, sequer, alvitrar aqui que exista alguma espécie de compensação.

Queremos é afirmar que a nossa Lampreia gosta de combate; é forte, beirã.
E não irá de mota para lado nenhum!

Assim nos saibamos unir – particulares, associações, autarquias, grupos de cidadãos -  para que tudo nos seja muito bem explicado e para que a ciência do nosso País possa, previamente, pronunciar-se, a tempo de evitar a irreversibilidade que a política tão bem tem sabido disfarçar.

Ou isso constitui, in casu, alguma impossibilidade?


Luís Pais Amante - Mordomo-Mor da Confraria da Lampreia


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