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POESIA , a propósito dos "Casados e Solteiros"


Ele há manifestações populares
Que se colam no cardápio dos eventos
Como se fossem musgo fresco agarrado ao pinheiro corpulento
Perduram no tempo
Refrescam o pensamento
Remoçam o nosso sentimento
E passam a ganhar notoriedade
Quando ultrapassam o meio século na idade
Assim é, na nossa terra, o Sábado de Aleluia
Dia dos Solteiros/Casados
Que juntos, em são compromisso de amizade, saem à rua
Desde os anos sessenta
As actividades são programadas durante um ano inteiro
E acompanhadas, mais de perto, por uma eleita Comissão
Esta faz durante o ano peditório atempado
Canta os Reis pelo povoado
Arrecada uns trocos pr’a garantir o “guisado”
Compra o porco
O pão
As batatas
O azeite
E a vinhaça de tostão para dar à Festa mais deleite
O local da matança já está decidido por herança
É o Terreiro de Penacova
A nossa bela sala de visitas
Antes do sacrifício do animal, feito a meio da manhã
Já as equipas de futebol respectivas
Estudaram o adversário
Tiraram-lhe as medidas
E decidiram a táctica mais activa: “tudo a monte e fé em Deus”
Depois da “comezaina” faz-se o jogo a feijões
Aquele que aqui relato passou-se no Campo das Uniões
Inclinado
Nos anos sessenta
O Quim Zé dá um frango aos 5 minutos que provoca grande banzé
Numa bola atrasada, devagarinho pelo defesa direito Arturzinho, com o pé
O Armindo (Assopra) – atleta do Santa Clara - corre como um desalmado
E sem querer saber da bola, salta-lhe ao lado para não estragar o penteado
O Evaristo, que mais parece um corisco
Ao ver golo tira a camiseta e fica de tronco peludo nu
O Ercílio roda roda, finta-se a si próprio, até que lhe cai o calção
E exposto lhe fica o cu
Branquinho e redondinho
O Menezes, jogando de botas de cano alto
Pr’a dar nas vistas
Dá um pontapé, de ressalto, com a canela no meio campo esquerdo
A descer
A bola sobe, sobe, sobe, descontrolada
Leva um safanão do vento gerado pela corrida do outro
Caindo a pique por detrás dos braços abertos e rotos do Manel (Cirilo)
Que foi vaiado e logo substituído
Para não haver, naquele ano, a habitual confusão
O árbitro – da Cheira – marcou um pênalti no último minuto
E o empate ficou garantido
Sem ninguém ficar desiludido
O bom do jantar, com acta lavrada, foi de batatas com bacalhau
Na Casa de Comida da Lizete
Que as cozinhava bem como se tocasse trompete
Antes do comer, porém
Já tinha sido feito o desfile da rapaziada
Pela Vila fora, animada
Parando de adega em adega, até na do Senhor Malva
Que abria só nesse dia
E dava vinho palhete, de espicho, que provocava muita azia
Terminando no cruzamento do lado de lá da ponte da Ponte
Junto à placa que indica – e indicava – a Vila de Santa Comba Dão
Onde empoleirado fazia o Artur Amaral um discurso efusivo
Sempre de ocasião...
Afinal, nesses tempos, o “jogo” era só um pretexto da nossa Juventude irrequieta
Para fazer um tipo de política irónica e muitas vezes indiscreta
Que “ouvidos” lá postos para fazer o relato
O transmitiam, depois, pelos canais anafados da “polícia dos desacatos”
Cujo terminal estava sediado em Lisboa, num lugar pomposo
Que ficou a ser conhecido como local horroroso
Instalado na Rua António Maria Cardoso
... A PIDE!

Luís Pais Amante

A rememorar um acontecimento imperdível, no nosso tempo, em Penacova, que tinha cariz ousadamente político!

Legenda da foto
Em pé, da esquerda para a direita
António Amaral; Evaristo Amante; José Soares; Joaquim José Viseu; Artur Coimbra; Duarte Pimentel; Vasco Viseu; Artur Amaral; Armando Jorge Pimentel
De joelhos, da esquerda para a direita
José Pedro Amaral; António Ferreira Simões, Luiz Menezes, Luís Viseu; Atur Oliveira, Luís Amante, José António Soares Ribeiro





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