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ENTREVISTA - Ema Lopes fala ao Diário As Beiras sobre a sua vida dedicada ao karaté


Como é que surgiu o karaté na sua vida?

Comecei com seis anos no Sport Club Conimbricense. O meu pai já tinha sido karateca e eu era um pouco reguila na escola – muito faladora, distraída e batia facilmente nos rapazes – e ele achou por bem meter-me no karaté.
E a experiência correu tão bem que foi campeã do mundo sete vezes…
Sinceramente, já nem me lembro bem. Fui duas vezes nos Estados Unidos, uma vez na Finlândia, na Suíça, África do Sul, Portugal e Alemanha. Depois mais algumas vezes campeã da Europa.

O karaté ocupa uma parte importante da sua vida?

Atualmente, dou treinos às terças, quartas, quintas e sextas-feiras. Às quintas-feiras damos um treino às 09H00 e aí aproveito para treinar, porque é o meu marido que dá o treino. À sexta-feira, o dia é completamente dedicado ao karaté. Começo às 09H30 e acabo às 21H30, sempre seguido, só com uma hora de intervalo…
Quando era atleta, fazia três treinos de karaté semanais, depois fazia treino físico e, por vezes, depois do meu treino, ainda ia para os Arcos do Jardim, treinar com outros colegas. Mas penso que o que fez a diferença foi a atitude que tinha tanto no treino como na vida.
O ser atleta não é só praticar desporto, mas escolher afastar-se de determinados estilos de vida. A minha vida era escola e karaté.

Tem uma irmã que também lhe seguiu as pisadas…

Ela nasceu no ano em que fui pela primeira vez campeã do mundo. Comecei a dar treinos aos 16 anos e, aos 18, abri a primeira escola. Assim que ela fez três anos eu pu-la a treinar, porque, se eu era reguila, ela era bem pior que eu.
Depois acabámos por ser campeãs do mundo as duas nos Estados Unidos, em 2012. Ela nos juniores, eu nos seniores, e depois, também, em equipa.

Como é que lhe surgiu, tão nova, o gosto pelo ensino?

Com 13 anos já era cinto castanho e o meu mestre colocava-nos logo a acompanhar os mais pequeninos. Com 16 anos, eu já era cinto negro e o meu mestre, por imposição profissional, muitas vezes não conseguia dar o treino e eu acabei por segurar os treinos. Foi um bichinho muito grande que se instalou o poder passar para os outros o que me ensinaram.

Imagino que não saia barato participar em tantas competições internacionais, como teve oportunidade de fazer…

Não. Em 1996, os atletas que participaram tiveram de custear uma parte do valor. Mas, felizmente, posso arriscar dizer que estamos numa associação – que posso arriscar que é a única a nível nacional –, que paga na totalidade as despesas aos atletas. As custas que temos é na deslocação para os treinos da seleção, que, nalgumas famílias, é pesado. Na minha era, de facto, pesado.
Eu fazia limpezas em casa das minhas vizinhas para ganhar dinheiro. Quando fui pela primeira vez aos Estados Unidos, alguns familiares ajudaram-me, mas a maior parte foi pelo meu esforço.
Mas, a partir de 1998, a nossa associação conseguiu sempre custear as participações dos atletas.

Tem ideia de quantas competições internacionais disputou?

Não. Sinceramente já perdi a conta.

O karaté foi também uma influência para a sua vida profissional?

Sim. Eu comecei a treinar karaté no Sport Conimbricense com o Pedro Choy, que é o N º1 em medicina chinesa em Portugal.
E habituámo-nos a sermos tratados por ele.
Meses antes de ir ao Mundial dos Estados Unidos, em 96, tive um problema de saúde e os médicos disseram que eu não poderia praticar desporto.
 Mas o Pedro Choy era também o médico da seleção e disse-me para não me preocupar. E fui campeã.
Um ano antes de eu terminar o 12.º ano foi quando ele abriu a Universidade de Medicina Chinesa… e eu nem olhei para trás.

Abriu a primeira escola aos 18 anos. Neste momento tem quantas escolas sob a sua responsabilidade?

Eu e o meu marido temos o Sport Clube Conimbricense, o Agrupamento de Escolas Rainha Santa Isabel, Instituto de Lordemão e Colégio Beija Flor. Depois, a Bruna [irmã] tem os Olivais.

Mas fora de Coimbra também têm escolas?

Sim. Em Poiares, na Lousã e em Penacova.

Pratica-se muito karaté no distrito?

Sim. Só no distrito deve haver perto de 200 escolas. Houve um crescimento muito grande da modalidade nos últimos anos. Mas não é em todo o lado que se pratica karaté desportivo. É diferente o karaté desportivo e o karaté marcial.

Qual é a diferença?

Há escolas que só treinam competição. Nas nossas escolas, por exemplo, a maioria dos jovens, até aos 15 anos, competem e, a partir daí, a maioria não compete. Temos pessoas com 40, 50 ou 60 anos, que não competem. No karaté marcial, as pessoas treinam pelo bem-estar e para desenvolver a sua técnica. É mais virado para a filosofia oriental e não para a competição.

Neste momento tem quantos alunos sob a sua responsabilidade?

Cerca de 200…

A que acha que se deve este sucesso?

Sem dúvida, à equipa. Eu e o meu marido temos conseguido transmitir aos nossos alunos uma coesão e dedicação que se alarga ao grupo todo. Se não tivéssemos essa coesão dificilmente conseguiríamos ter os resultados que temos alcançado – já tivemos vários campeões nacionais e atletas na seleção.

Recentemente, graduou-se para 6.º Dan, em Inglaterra. Tem ideia de quantos mestres há em Portugal com esta graduação?

Entre todos os estilos serão uns 20 ou 30. Na nossa associação [Associação Portuguesa de Karate Shukokai] são uns seis ou sete.

O karaté está enraizado na sua vida de uma maneira que nunca vai sair…?

Não. A filosofia do karaté está tão enraizada em mim que não há hipótese. O treino, o gosto pela arte, pelo ensino, pelas crianças… Depois tenho três filhos que também praticam, o marido, a irmã, a sogra, a sobrinha… está lá tudo! [risos]

Acreditam que os filhos lhe vão seguir as pisadas?

Como eles quiserem. O mais velho foi à seleção de basquetebol este ano e posso dizer que divide o seu tempo entre as duas modalidades. O meu filho do meio tem beneficiado muito com o karaté, porque tem algumas dificuldades de gestão emocional e às vezes tem receios e quer desistir da competição. A mais pequena é uma máquina de treino…

Claro que gostaria que eles seguissem, porque sei o que o karaté fez por mim e tento-lhes incutir esta filosofia.

Quando lhe pedem conselhos, porque acha que se justifica praticar o karaté?

O karaté é uma filosofia de vida. Para além disso é dos desportos mais completos em termos físicos. Desenvolve toda a parte motora, como flexibilidade, coordenação e agilidade. E depois a parte cognitiva. Estão sempre sujeitos a vários estímulos. Precisam de avaliar distância, reação e tomada de decisão…

Normalmente os miúdos que praticam karaté têm uma agilidade de raciocínio muito mais rápida do que os outros e desenvolvem facilmente a capacidade de adaptação. Para além disto, ensina a levar uma vida sem excessos, a serem corretos com os colegas, os pais, e a dedicarem-se ao máximo em tudo o que fazem.

Bruno Gonçalves – Diário As Beiras




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