MEMÓRIAS DE UM EX-COMBATENTE - Capítulo III – O apito do inimigo Penacova Actual PENACOVA ACTUAL - Jornal de Penacova

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MEMÓRIAS DE UM EX-COMBATENTE - Capítulo III – O apito do inimigo


Tinha sido roubado... Entrei em pânico, porque no final do nosso período em combate (esperava eu) teria de apresentar tudo o que levara, correndo o risco de sofrer represálias se assim não cumprisse. No meio desse azar (fora tantos outros muito piores) tive a sorte de conhecer um colega do mesmo batalhão do que eu, mas que estava noutra companhia a 100 km de onde me encontrava, que viera um dia ao nosso acampamento, servindo de segurança às colunas que levavam comida para nós. Esse colega tinha o seu posto num armazém de material e, sabendo daquilo que me acontecera, teve a gentileza de me fornecer alguns dos materiais que me tinham sido levados, com a exceção do pano de tenda. Essa ajuda foi valiosa e já dava para me desenrascar bastante.

Ao fim de mais ou menos seis meses em combate (não me recordo muito bem), saímos numa operação que demorou três dias. Contudo, chegávamos a ter operações que duravam seis ou sete dias seguidos, sem regressar ao acampamento... O desgaste era muito, tanto físico como psicológico, mas a ânsia angustiante por sobreviver era maior, apesar de não negar que, por vezes, a vontade de baixar os braços e desistir parecia desesperadamente a melhor saída. As operações que fazíamos geravam um clima de grande tensão, porque tanto andávamos nós à procura do inimigo, como eles à nossa procura... Tanto podíamos ser nós a atacar, como sermos nós os surpreendidos e atacados... Tínhamos de andar com os sentidos bem alerta, com o máximo de cuidado e silenciosamente, o que não era tarefa fácil. Para além de suportar o calor imenso e abafado que nos sufocava, assim como a fome e a sede insuportáveis que pesavam sobre nós e que nem sempre podiam ser satisfeitas, ora porque não havia água, ora porque a ração de combate terminava e não tínhamos mais que comer. Dias tristes e duros. Só Deus sabe o que nos doía o peito, o que vagueava pela nossa mente e o misto de medo, tristeza, raiva e revolta que nos corrompia por dentro... Ninguém merece a dureza da guerra.

Essa operação que demorou três dias (contando a ida e a volta) tinha o intuito de atacar um acampamento inimigo durante o dia. Saímos do nosso e avançámos em direção ao outro, debaixo de um calor abrasador. Ao fim de um tempo a caminhar, o cansaço começava a acumular-se e a perturbar-nos... Queríamos andar e não podíamos, pois as calças roçavam nas virilhas e cortavam-nos a pele, deixando-a em ferida, por isso preferíamos tirá-las e ir com as pernas a roçar no mato (ainda hoje permanecem em mim mazelas físicas à custa disso). O enfermeiro que sempre nos acompanhava nas operações punha-nos pó de talco nas feridas, mas ardia muito e a dor era agoniante....

Durante o dia iamos caminhando e, quando chegava a noite, aumentava a tensão e o medo de ser atacado, o que me fazia não dormir quase nada, acumulando ainda mais cansaço sob o meu corpo. Ainda assim, tinha de continuar e terminar a operação (ansiando manter-me vivo).

Quando chegámos ao acampamento inimigo, que ficava numa aldeia tal como o nosso, preparamo-nos em linha antes de avançar e, logo de seguida, entrámos a atacar, mandando fogo. Os inimigos responderam, recuando e abandonando o acampamento. No fim do nosso ataque, vasculhámos a aldeia e ainda encontrámos algumas munições que deixaram lá ficar. Eu encontrei também um apito que me disseram servir para os inimigos tocarem, dando sinal aos pequenos grupos deles para se reunirem, juntando-se e, assim, atacarem em conjunto. Ou seja, servia como um sinal para se reunirem. Nunca mais o larguei e guardei-o como recordação (chegando a traze-lo para casa, quando regressei).

Ao sairmos, de regresso ao nosso acampamento, incendiámos as palhotas da aldeia, deixando-a toda destruída. Trouxemos ainda umas galinhas que lá encontrámos, para podermos comer. Porém, tivemos de matá-las para que não fossem a fazer barulho pelo caminho de regresso, metendo-nos em risco de sermos atacados, ao alertarem o inimigo com barulho.

Nessa operação acabámos por ter sorte, porque não tivemos feridos nem mortos. No que respeitava ao inimigo, não sabia ao certo, pois eles tinham o hábito de levar consigo todos os seus independentemente de estarem vivos ou mortos. Por isso mesmo, nunca chegávamos a saber ao certo qual o número das suas baixas. No entanto, apesar de a sorte ter estado do nosso lado nessa vez, nunca saberíamos o que ainda estaria por vir...

Mariana Assunção
Através do testemunho de Fernando da Conceição



Nota da autora: Os factos aqui relatados são verídicos e provenientes do testemunho real de um ex-combatente da Guerra do Ultramar: o meu avô, Fernando da Conceição, que gentilmente se disponibilizou para os relatar, assim como para partilhar algumas das suas recordações desse período em que esteve na Guerra.
Com esta partilha dá-se a conhecer algumas das experiências que, assim como o meu avô, tantos outros homens viveram e que os marcaram para o resto das suas vidas.
Pretendo, deste modo, prestar uma sentida homenagem a todos estes grandes heróis, que são muitas vezes esquecidos, sobretudo pelo passar do tempo que vai deixando essa época cada vez mais longínqua.
Contudo, todos estes homens não deixaram de ser grandes lutadores. Não foi por regressarem do combate que deixaram de lutar, porque ainda hoje todos lutam contra as memórias sangrentas dessa altura! Todos eles são, ainda hoje, os mesmos heróis de antigamente!

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