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OPINIÃO - Três razões para o falhanço dos Coletes Amarelos em Portugal


Ultrapassado mais um período festivo, ficam os bons momentos em família com aqueles que não temos a sorte de ver o ano todo, nomeadamente os que estão fora do país.

No meu seio familiar, as conversas tombam muitas vezes para o espectro político e as comparações tornam-se inevitáveis. No fim de um desses jantares, algures entre o natal e a passagem de ano, o tema em cima da minha mesa – e estou certo, a de muitos de vós - foi a manifestação dos coletes amarelos e como tinha sido diferente a variante portuguesa em relação ao movimento original francês.

Como não podia ficar calado perante o típico encolher de ombros acompanhado de “os Portugueses não são assim”, apresento-vos hoje uma versão resumida da minha argumentação nessa noite.

1 - Portugal não precisa de um movimento de coletes amarelos porque já tem o seu próprio movimento de contestação social.

Falo do surto de greves e reivindicações que todas as semanas fazem a primeira página dos jornais.

Em Portugal, as pessoas a manifestam-se essencialmente por razões de carreira, apoiadas nos sindicatos e ordens profissionais. As lutas dos professores, dos juízes, dos estivadores, dos enfermeiros são protestos organizados e com um conjunto de reivindicações objectivas, tudo aquilo que os coletes amarelos não são. O movimento dos coletes amarelos, inorgânico e com uma série de reivindicações desgarradas e por vezes contraditórias, não se adequa ao modelo português de protesto. Permito-me uma leitura optimista e ir mais longe: eu acredito que em Portugal as pessoas ainda confiam nos sindicatos e nas instituições democráticas, talvez a um nível que os Franceses já não confiam.

2 - O Governo Português apostou numa política de devolução de rendimentos.

Por muito que custe a alguns, este governo virou mesmo a página da austeridade. Austeridade não significa ter uma carga fiscal excessiva. Significa tentar reduzir a despesa pública à custa dos mesmos de sempre, extinguindo subsídios e outros apoios sociais. Este governo percebeu que essa via, para além de impopular, é ineficaz e apostou noutro caminho para o crescimento.
Daqui resultou que, contrariamente ao exemplo francês, foram as classes mais baixas que mais beneficiaram da recuperação económica, nomeadamente a recuperação do emprego, do aumento do salário mínimo e das pensões.


3 – O povo francês não tem alternativas credíveis à política de Macron.

A popularidade do protesto francês alimenta-se de um sentimento de impotência do eleitor, cujas opções parecem estar limitadas aos populismos de Mélenchon ou de Le Pen. O vazio ideológico que define a política francesa contrasta com a vivacidade do espectro político português. Hoje, votar no Bloco de Esquerda não é só um voto de protesto, é um sinal de que queremos que o governo vá mais além nas questões sociais. Votar PS ou PSD representa uma verdadeira escolha ideológica e mesmo o CDS pretende descolar-se da função de partido muleta do PSD para ambicionar ser uma verdadeira alternativa de direita. Adicionalmente, o Presidente da República tem tido um papel fundamental na credibilização da classe política com a sua presença constante e apresentando justificações claras para os seus actos políticos.

Em suma, o movimento dos coletes amarelos não tem a mesma tracção em Portugal porque a actual situação política devolveu algo muito precioso ao povo. 

Algo que em França parece irremediavelmente perdido: a esperança de ser ouvido por quem o governa.

Rui Sancho

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