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ENTREVISTA - Bruno Paixão faz balanço do primeiro ano como diretor distrital da Fundação Inatel


Um ano depois de ter tomado posse, o diretor distrital de Coimbra da Fundação Inatel, Bruno Paixão, revela o que mudou na gestão desta instituição e avança com alguns dos projetos que já tem agendados até ao final de 2019. Sobre o edifício da rua António Granjo, o responsável disse que já existem propostas para a sua aquisição, mas a decisão final caberá ao Conselho de Administração


O que mudou neste ano de mandato na Fundação Inatel em Coimbra?
Antes de mais, estamos perante uma muito relevante entidade de economia social, com 84 anos, 200 mil sócios ativos e implantação em todo o País. Este é um lado institucional com enorme peso no contexto nacional. Há um outro lado, mais intimista se quisermos, que depende das pessoas que estão nas organizações. Nessa medida, entrei com espírito de missão e tenho colocado muito de mim nesta instituição em Coimbra. Todavia, é importante sublinhar que ninguém faz nada sozinho. Tenho uma excelente equipa, mobilizada, que tem vontade de fazer e de concretizar.

Estamos a falar de uma Fundação que é muito procurada pelas coletividades e autarquias…
A comunidade, de uma maneira geral, procura a nossa recetividade para um envolvimento mais efetivo. E nós, como forma de estar, estamos mais atentos às suas ideias e profundamente abertos à cooperação.

A mudança de posicionamento tem sido bem vista pela região?
Sem falsas modéstias, creio que sim. Criámos uma excelente relação com, basicamente, todos os municípios da nossa região, bem como com centenas de coletividades. Tenho uma relação muito franca, assídua e fraterna com as pessoas. Vejo a relação como uma bicicleta: se não dermos aos pedais, acabaremos por cair. E, portanto, é preciso dar aos pedais, constantemente, estar atentos, pensar e concretizar coisas.

Tem mobilizado parcerias?
Penso que ganhamos todos muito mais se fizermos o nosso trabalho em cooperação, fomentando a participação, envolvendo as pessoas. O que um dia ficará é a obra, e a obra é das pessoas. Não é possível fazer nada em plenitude se não for em cooperação com as entidades e com as pessoas, dando, no fundo, “luz” às ideias que germinam. Nunca me dei mal com a humildade e a abertura de espírito.

Sem aumentar o orçamento?
O caudal de atividades que apresentamos trouxe um investimento na cultura, no desporto, no lazer, no turismo e na ação social que nós desenvolvemos. Isso não é quantificável.

A Fundação Inatel mudou de instalações recentemente…
A fração do edifício onde nos encontrávamos, um espaço mítico da Baixa, apresentava constrangimentos à nossa funcionalidade. Como tal, havia a necessidade de mudar. Essa mudança trouxe-nos uma maior agilidade ao nível operacional.

A mudança de sede foi a decisão mais importante do primeiro ano de mandato?
Penso que não. Foi, apenas, uma das medidas. Não podemos ter medo de tomar resoluções difíceis. Todos os dias tomamos decisões e todos os dias renovamos a nossa determinação para servir as pessoas a quem nos destinamos. Quanto ao futuro do espaço, o Conselho de Administração está a avaliar as propostas que temos em mãos.

Encara esta sua função como uma missão?
O meu trabalho é pago em dores de cabeça e todos os dias temos questões para resolver. Desde associações em dificuldades, a equipas desportivas, que são muitas, que vivem do verdadeiro espírito associativo - a carolice e a entrega dos cidadãos a uma associação a troco de ver fazer acontecer coisas na sua comunidade -, todos os dias somos confrontados com diversos paradigmas.

Ajuda a sua boa relação com as coletividades?
Tenho sentido que as associações culturais vêm em mim um aliado, alguém que não desiste dos bons projetos, alguém que não se deixa demover pelas dificuldades e constrangimentos que encontra. A porta do meu gabinete está sempre aberta. Aliás, uma das tónicas desde que entrei em funções tem sido ir ao encontro das pessoas, em trabalho itinerante, o que tem levado a que passe muito tempo no terreno. Neste ano, tenho tentado conhecer melhor as coletividades e as pessoas que as dirigem, de forma a que elas possam ser incentivadas e apoiadas.

Na área cultural, o que mudou desde setembro de 2018?
Temos um caudal de atividades culturais que está à vista de todos, não me cumpre a mim qualificá-lo. Mas, uma vez mais, sublinho: ninguém é nada sozinho. Se não fosse a nossa abertura às ideias alheias, não teríamos feito nem metade do que fizemos. Quero aqui realçar o trabalho desenvolvido anteriormente pelo Senhor João Fernandes. Durante 30 anos, ele foi o verdadeiro “Senhor Inatel”, mostrando um rasgo intelectual muito grande, acompanhando e impulsionando o trabalho desenvolvido pelas associações. Foi essa forma de estar no dirigismo que eu quis realçar no início das minhas funções, ao recuperar algumas das iniciativas espoletadas pelo Senhor João Fernandes há três décadas.

Quer dar alguns exemplos?
Os exemplos abundam. Desde o Ciclo Miguel Torga que, na presente edição, levou muita gente à Baixa e às montras dos seus estabelecimentos comerciais. Tratou-se de uma exposição fotográfica com imagens originais de Varela Pécurto que estavam confinadas a um caixote numa arrecadação. Decidimos desafiar o autor das fotografias para as expor novamente, acompanhadas por textos escritos num livro publicado naquela altura pela Fundação Inatel. Outro dos vários exemplos que não posso deixar de assinalar foi a recuperação do Concerto de Natal na Igreja de S. José e que encheu por completo aquele templo religioso da cidade.

Mas há iniciativas com o “dedo” do atual responsável...
Deixe que lhe diga uma coisa: existe uma tentação de mudarmos tudo quando assumimos a liderança de um novo projeto. Eu procuro resistir a uma postura de colocar em causa todo o trabalho feito anteriormente. Feita esta ressalva, devo dizer que temos levado a efeito alguns eventos onde tem sido fundamental o trabalho desenvolvido pelos colaboradores da Fundação Inatel. São eles os primeiros impulsionadores de novas propostas, o que me deixa extremamente satisfeito.

Tem levado a cultura de Coimbra a outros palcos…
É verdade… Ainda em maio levámos ao Teatro da Trindade, em Lisboa, a Canção de Coimbra, conjugada com a liberdade. Acho que devemos exportar a nossa cultura, pois temos um produto excecional que nos representa e identifica, com valor cultural e económico. Nesta noite, foi espantoso ver centenas de pessoas com ligação a Coimbra a assistir ao espetáculo. Outra das iniciativas que irá em breve viajar por várias bibliotecas é a exposição fotográfica sobre Miguel Torga, de que há pouco falávamos.

Foram impulsionadores das comemorações dos 50 anos da Crise Académica de 1969…
Com o apoio do presidente do Conselho de Administração da Fundação, Francisco Madelino - um homem aberto à realização de iniciativas que ajudem as regiões a pugnar pela sua identidade -, convidámos o presidente da Direção-Geral da AAC em 1969, Alberto Martins, a envolver-se nas iniciativas que preparámos. Foi, sob várias perspetivas, memorável.

Outra das novidades foi a presença em feiras da região...
Marcámos presença em alguns dos principais certames da região. Uma vez mais, para estarmos junto das pessoas. Uma medida que nos permitiu contactar com a população de todo o distrito e a ativar a nossa marca. Tem estado presente onde há muito tempo a Inatel não ia… Isso é o corolário natural do nosso percurso. Dou como exemplo a comemoração dos 50 anos da data em que o Homem pisou a Lua, em que materializámos eventos diversos como o “Jazz ao Luar”, o “Cinema ao Luar” e os “Avós com a cabeça na Lua”. Iniciativas que nos permitiram ir ao encontro de pessoas a locais onde, habitualmente, a cultura não chega e que serve de mobilização para a própria comunidade.

Porque voltou à temática medieval?
Sabia que a primeira feira medieval do país teve lugar em Coimbra? Foi a Fundação Inatel, através do rasgo intelectual do Senhor João Fernandes, que a realizou. Esta temática está no nosso ADN. Por isso trouxemos a palco o “Circo Medieval”, com um grupo português e um italiano, desta feita no Bairro Norton de Matos, em Coimbra.

Que propostas existem até ao final do ano?
Ainda este mês, no Castelo de Montemor-o-Velho, temos agendado para o dia 21 um espetáculo noturno com cinco filarmónicas. Completaremos o Ciclo de Cinema ao Luar na aldeia do Xisto de Vila Cova do Alva. Teremos uma sessão de jazz na Lousã e estaremos presentes na recriação das Batalhas do Bussaco. No decorrer do mês de outubro iremos realizar um Ciclo de Órgãos de Tubos em cinco concelhos do distrito de Coimbra. Queremos, com este festival, evidenciar o espólio que a região dispõe no que concerne a este tipo de património e que a tornam especial a nível internacional. Alguns destes órgãos estão em más condições e carecem de intervenções que permitam à comunidade ter acesso a este tipo de cultura. Vamos contar com instrumentistas de primeira linha e que vão apresentar trabalhos que fazem a ligação entre a contemporaneidade e as peças mais antigas. É um trabalho conjunto com a Diocese de Coimbra, a quem devo publicamente agradecer o apoio dado desde o primeiro minuto em que este projeto lhe foi apresentado. O mês de novembro será dedicado ao Teatro, estando previstos espetáculos em muitos locais da região. Em dezembro prosseguimos com inúmeras atividades…

O Campeonato de Futebol é uma das iniciativas que tem levado o nome do Inatel a todo o distrito...
É verdade. E há números que muitos desconhecem e que merecem ser aqui realçados. Este campeonato mobiliza cerca de 800 atletas, os quais percorrem todos os fins de semana os campos de todo o distrito. A próxima edição do Campeonato Distrital vai ter início em 12 de outubro, contando com 26 equipas.

Para os menos conhecedores, estamos a falar de equipas...
... de cariz amador, com qualidade, espírito desportivo, “fair play”, cujos jogadores não faltam aos treinos. São formações que, quando viajam, levam centenas de apoiantes aos campos adversários. Trata-se de um tipo de disputa diferente daquela a que estamos habituados a ver na televisão. Uma dinâmica que tem em si um verdadeiro espírito associativo e que mobiliza toda uma comunidade. Não estamos a falar de um domínio profissional, mas de um domínio amador que merece e deve ser apoiado. Estou em crer que, para bem da cidadania, estas associações merecem sobreviver e não podem, de maneira nenhuma, demitir-se da sua função junto das camadas mais jovens.

Que tipo de apoio dá a Fundação?
Temos várias modalidades de apoio. Mas, se me permite, gostaria de salientar, ao nível desportivo, nas diversas modalidades que temos em disputa, a realização da Gala do Desporto, que promoveu o “fair-play”. Fiquei muito satisfeito com a adesão das coletividades, as quais encheram por completo o auditório das nossas novas instalações.

Um momento que também serviu para homenagear a única equipa do distrito que venceu o Campeonato Nacional da Fundação Inatel?
Trata-se de uma equipa de Maiorca, Figueira da Foz. Uma história que descobrimos, precisamente, quando visitámos as instalações do clube, nas conversas com os seus dirigentes e atletas.

A formação não foi esquecida?
Claro que não. Este mês abrimos as inscrições para a realização de cursos certifi cados em diversas áreas.

E o turismo?
Para além do turismo nacional que é reconhecido à Fundação Inatel, temos a decorrer localmente o projeto “Conheça a sua região”, que envolve todos os municípios. Uma parceria com a Comunidade Intermunicipal e que pretende estender o conhecimento do território a pessoas que não visitam habitualmente concelhos vizinhos. Com este projeto, estamos também a dar apoio às microeconomias, de forma a que as pessoas possam conhecer outras comunidades no seu território.

Todo este trabalho não teria sido feito sem o apoio das instituições...
Claramente. Tem sido um relacionamento muito profícuo.

Nem sempre estão de acordo…
Isso resulta da vida democrática. Podemos ter opiniões dissonantes e formas de agir diferentes. Mas as instituições e as nossas missões devem prevalecer. Tenho uma excelente relação com a generalidade delas, com os seus dirigentes e com todas as forças vivas, sem qualquer tipo de discriminação. E isso, para mim, é incontornável.


Jornalista António Alves



Entrevista originalmente publicada na edição impressa do jornal "Diário As Beiras de 14.09.2019

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