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COVID 19 - O que soubemos esta semana sobre o vírus *


Perder o olfato e o paladar é um sintoma-chave. E há dúvidas sobre se existe transmissão pelo ar

TEXTO MICAEL PEREIRA ILUSTRAÇÃO HELDER OLIVEIRA 

1 AUSÊNCIA DE OLFATO E PALADAR REPRESENTA UMA PROBABILIDADE GRANDE DE ESTAR DOENTE COM COVID-19
As conclusões são preliminares e ainda muito recentes. Investigadores do King’s College de Londres estão a trabalhar com 1,5 milhões de utilizadores britânicos de uma aplicação para telemóvel, a Covid Symptom Tracker, em que os voluntários vão reportando os seus próprios sintomas ao longo do tempo. Os dados iniciais, com base em informações prestadas entre 24 e 29 de março por 400 mil pessoas — foram já de si reveladores. Dos utilizadores que responderam, 1702 tinham feito o teste da covid-19. Desses, 579 estavam positivos e 1123 negativos. Nos casos que deram positivo, 59% dos doentes tinham reportado que perderam o olfato e o paladar. O coordenador da investigação explicou que “quando combinadas com outros sintomas, as pessoas com perda de olfato e de paladar parecem ter três vezes mais probabilidades de ter contraído covid-19”. A equipa concluiu que, a confirmar-se essa taxa de probabilidade, 50 mil das 400 mil pessoas que relataram os seus sintomas através da aplicação deverão estar infetadas.
HÁ INDICAÇÕES CADA VEZ MAIS FORTES PARA USO GENERALIZADO DE MÁSCARA NA POPULAÇÃO
A posição até agora assumida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é para que o uso de máscara seja limitado aos médicos, enfermeiros e aos próprios doentes da covid-19, deixando de fora a população em geral. Mas os sinais em sentido contrário vão sendo reforçados. Há uma semana a prestigiada revista americana “Science” publicou uma entrevista com George Gao, diretor-geral do Centro Chinês de Controlo e Prevenção de Doenças, que integrou a primeira equipa que isolou e fez a sequência do coronavírus. Nessa entrevista, Gao disse: “O grande erro nos EUA e na Europa, na minha opinião, é que as pessoas não estão a usar máscaras. Este vírus é transmitido por gotículas e por contacto próximo. As gotículas desempenham um papel muito importante — temos de usar máscara, porque quando falamos há sempre gotículas a sair da boca. Muitas pessoas têm infeções assintomáticas ou pré-sintomáticas. Se essas pessoas usarem máscaras, isso pode impedir que gotículas com vírus escapem e infetem outras pessoas.”
Entretanto, na terça-feira, Robert Redfield, diretor do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças norte-americano, admitiu que cerca de 25% das pessoas infetadas podem não apresentar sintomas e, apesar de esta instituição ter defendido até agora o uso de máscaras apenas por pessoas que se sintam doentes, assumiu que essa política “está a ser revista de forma crítica”. Na quarta-feira, o jornal “The Guardian” dava conta de que a própria OMS, depois de ter recebido informações confidenciais de um novo estudo feito em Hong Kong, está a ponderar mudar a sua recomendação. Na República Checa e na Eslováquia, a máscara já passou a ser obrigatória para toda a gente. São os únicos países europeus onde isso acontece.
3 ESTÁ EM ABERTO A HIPÓTESE DE O VÍRUS PODER SER TRANSMITIDO PELO AR, POR PARTÍCULAS MUITO MAIS PEQUENAS DO QUE AS GOTÍCULAS
A versão oficial é que alguém infetado com SARS-CoV-2 só contagia outra pessoa se tossir ou espirrar. As gotículas que resultam daí são projetadas no ar e inspiradas ou então vão parar a uma superfície, com a sequência que já se sabe: depois a superfície pode ser tocada por quem levar inadvertidamente a mão suja à boca, ao nariz ou aos olhos. Mas... será só isso? Quinta-feira, a revista científica “Nature” revelava que os cientistas estão divididos sobre até que ponto o vírus não será transmitido pelo ar — ou seja, não apenas em gotículas, mas em partículas muito mais pequenas (abaixo dos cinco micrómetros de diâmetro, isto é, mais do 200 vezes menores do que um milímetro) e capazes de viajar mais longe. Essas micropartículas são conhecidas como aerossóis.
Embora ressalve que a própria OMS disse na semana passada não haver provas de que o vírus seja transmitido pelo ar, a “Nature” conta que existem indícios que apontam para essa hipótese. Em Wuhan, na China, onde os contágios começaram, foram recolhidos aerossóis em hospitais e lojas em que as análises mostraram a presença da sequência de ácido ribonucleico (RNA) do vírus. Os estudos preliminares, contudo, não foram capazes de determinar se esses aerossóis foram capazes de infetar pessoas. Pode demorar anos até se esclarecer esse mistério. Qual é o perigo, se isto for verdade? Pode bastar falar e respirar para infetar.
4 DOENTES GRAVES PODEM DESENVOLVER PROBLEMAS NEUROLÓGICOS, INCLUINDO PERDA DE FALA
Têm vindo a surgir casos em que são observados sintomas neurológicos entre os doentes graves com covid-19. No início de março, na Florida, além de apresentar falta de ar, um paciente de 74 anos perdeu a fala. Os médicos acabaram por diagnosticar-lhe covid-19. E já esta semana, em Detroit, uma mulher que testou positivo apresentava um quadro de confusão mental, acabando por lhe ser diagnosticada uma inflamação do cérebro, embora esteja ainda por provar que a causa tenha sido o coronavírus.
Um estudo publicado pelo “British Medical Journal”, a 26 de março, revela como os exames clínicos de 113 pacientes que morreram por causa do coronavírus em Wuhan mostraram distúrbios de consciência em 25 dos casos (22%). Já entre 161 que recuperaram, o mesmo foi verificado apenas num único caso.
5 OS GATOS PODEM SER INFETADOS E CORREM MAIS RISCOS DO QUE OS CÃES
Um estudo conduzido na China sobre a transmissão do SARS-CoV-2 a várias espécies de animais revelou que os gatos podem ser infetados e podem transmitir o vírus a outros gatos, mas não ficam doentes. Os investigadores introduziram amostras do vírus, através do nariz, em cinco gatos. Mais tarde descobriram a presença de ácido ribonucleico (RNA) viral no sistema respiratório dessas cobaias. Os gatos foram depois colocados em jaulas com outros três não infetados e, destes, apenas um contraiu o vírus, sendo que nenhum apresentou sintomas.
Testes similares feitos com cinco cães mostraram que estes são menos suscetíveis de contrair a doença. Embora todos tenham sido inoculados, nenhum ficou infetado com o vírus. O mesmo aconteceu com porcos, galinhas e patos. Até agora, existem três situações reportadas (um gato na Bélgica, dois cães em Hong Kong) em que animais de estimação foram infetados por humanos.
6 VACINA BCG COMEÇOU A SER TESTADA COMO REFORÇO DO SISTEMA IMUNITÁRIO CONTRA A COVID-19
Foi inventada há 100 anos para prevenir a tuberculose, mas a BCG (Bacillus Calmette-Guerin) pode agora ganhar uma nova vida. A vacina começou a ser testada por investigadores na Austrália e na Europa como uma forma de reforçar as defesas e reduzir os problemas respiratórios provocados pela covid-19. Um estudo realizado por dois investigadores dinamarqueses na Guiné-Bissau concluiu que a BCG foi capaz de baixar em 50% a taxa de mortalidade em crianças, demonstrando que o seu efeito protetor vai muito para lá da tuberculose. Os ensaios clínicos estão concentrados em duas populações-alvo, de maior risco: idosos e profissionais de saúde. Apesar de os testes já terem começado, vai demorar meses até que se saiba se a BCG é de facto eficaz no combate ao coronavírus.
“A BCG já é usada no tratamento do cancro da bexiga, numa fase específica da evolução do tumor. Já muito foi estudado sobre como a BCG alarma o sistema imunitário e o ‘reprograma’ para um padrão de resposta diferente”, explica ao Expresso Markus Maeurer, clínico imunologista da Fundação Champalimaud. Entre outras funções, a BCG serve para “ativar” certos conjuntos de células imunológicas que podem ser benéficas no combate contra infeções — “talvez também do SARS-CoV-2”.
* Artigo originalmente publicado na edição 2475 do Jornal Expresso (exclusivo para assinantes) 

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