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REFLEXÕES - Entremos, em lugar de ‘não sair’




A escrita, na sua versão de solilóquio catártico, pode ser egoísta. Espelho confessional, de penitência apenas presumida e leve. Exercício de clínica [de, no caso, auto inclinação] amadora, no sentido de experimentalista e de amante. Ginásio suportável e fisioterapia das sinapses. Agora e aqui é especial e assumidamente um desses casos.
Andamos objetivamente inquietos com o espaço, que parece ter estreitado, e subjetivamente sem jeito para viver um tempo, que devolve a sensação de ter dilatado. Regresso ao egoísmo da primeira linha, para declarar, numa analítica existencial dolorosa que teima em se esconder na sombra da negação, que sinto o Tempo como uma vulnerabilidade pessoal mais patológica e desumanizante.
Dispensamo-nos de declinar as diferentes conceções de Tempo com cidadania na história do pensamento. Eterno e cíclico retorno. Retilíneo e linear, de um antes para um depois, de um menos para um mais, numa análise valorativa comum, mas ingénua e duvidosa. Plural, diverso, oscilante e vibrado, num conjunto de aceções mais ‘contemporâneas’. Lido a partir da Eternidade, numa perspetiva crente, emanentizando no instante essa eternidade, num enquadramento laico. Cronologia, numa interpretação veloz e voraz da sucessão de acontecimentos. ‘Kairologia’, numa leitura mais evidenciadora da oportunidade, da festa, da excecionalidade, da rutura… A língua alemã, por exemplo, distingue a palavra ‘história’ enquanto relato da sequência ‘neutra’ de acontecimentos, de ‘história’ enquanto narrativa interpretada. Agostinho de Hipona considerou saber definir o Tempo se não lhe perguntassem o que era, confessando não saber o que dizer se alguém lhe perguntasse. Tempo é Mistério de difícil decifração.
Vivemos desatualizados, escravos da atualidade, o único tempo que existe. No instante contemporâneo somos sempre emigrantes, estranhos e ausentes. A avidez da sorvência, que parecemos querer equivaler a sobrevivência, faz-nos chegar quase sempre atrasados a tudo e ‘receber’ o mundo numa ‘segunda mão’ requentada por alguém que o resumiu para nós e colocou nessa síntese a chancela de ‘Verdade’. Por outro lado, esta ditadura do instantâneo, como a única coisa que vale, persuade-nos a criar permanentemente ‘novidades mortas’, que não acrescentam, ninguém vê e não são fábrica de futuro.
Na fugacidade que nos escapa entre os dedos, que parece emancipada das grandes ideologias explicativas, que resiste às narrativas significantes e abdica das histórias que estruturam o individual e o comunitário, talvez a grande dificuldade sejamos nós próprios. Custa-nos lidar com esta personagem estranha que nos habita e que silenciamos com ruídos frequentes, obscurecemos com episódios alheios e tornamos opaca com as múltiplas mediações de que não abdicamos. A tecnologia, de inestimável valor e de infinitas possibilidades, não apaga nem substitui o papel da ética e da cultura. Lidar connosco custa e faz doer. Falta-nos o passado que já não temos e está ausente um futuro que ainda não vislumbramos, não antecipamos e não possuímos, à custa de um presente que urge devorar. E porque permanentemente nos atrasamos nesta degustação, ela não sacia. E procuramos outras ementas, sucedâneos da dieta dita ideal, sem que nada satisfaça. Nós que queremos ‘matar o tempo’, somos, no fim de contas, lentamente assassinados por ele. Porque abdicamos de o viver, sacrificados ao terror de um Novo simplesmente cosmético, sem pingo de criatividade, no sentido de diferença estética e de acrescento recriador.
O maior problema agora, talvez não seja seguramente não sair de casa. Há, é inegável, muito de pragmático para resolver. E a dificuldade será crescentemente dolorosa. Talvez fosse bom extinguir um conjunto de ‘lugares comuns’ retóricos, a tender para o solucionismo esotérico e pronunciados por quem está confortável e luxuosamente instalado, nomeadamente com o ordenado certo na conta bancária. Assim é simples ser otimista e a quarentena ganha contornos de leveza. Deixemos os especialistas aprender e aprimorar competências.
A maior dificuldade talvez seja não chegar a entrar em casa, não entrarmos em nós mesmos e não gerarmos em-patia [em sentido forte!] com [os] outros. Dedicados que estamos a este exercício moderno de estar potencialmente em todos os espaços, talvez não sobeje tempo para estar atualizadamente em lugar nenhum. Reféns desta atividade a que nos dedicamos de ser sozinhos, mesmo se rodeados de gente, não damos conta da solidão existencial e interior que erguemos. Resistindo ao silêncio do encontro connosco, insistindo em constantes ruidosas sonoridades que nos distraem de nós, não consciencializamos as oportunidades perdidas de crescimento. Marcados pelo ritmo quotidiano, que apenas nos permite registar levemente as feições ou o invólucro do outro ou balbuciar ‘frases feitas’ para entrecortar o silêncio, nem percebemos como já erguemos distâncias muito maiores e inultrapassáveis que o distanciamento social agora preconizado. A democraticidade deste igualador social que é o vírus apenas existe no momento da contração da infeção, na ocasião de necessidade de tratamento hospitalar e na morte. Mesmo a quarentena apenas é igual na formalidade. Todos os outros conteúdos são profunda e crescentemente assimétricos. O contrário é retórica, demagogia e populismo de ‘barriga cheia’. Haja Estado Social para repor justiça e direitos.
No fundo, nesta excecionalidade, para quem está aparentemente e por enquanto saudável, talvez custe mais entrar do que não sair. Não sair é um necessário e simples cumprimento de um preceito legal. Entrar é o grandioso e humanizante desígnio ético!

Luís Francisco Marques



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